Papa e empresários se unem por capitalismo inclusivo

Numa parceria inédita, o papa Francisco se uniu aos líderes de 27 grandes empresas e instituições do mundo para formar o Conselho para o Capitalismo Inclusivo com o Vaticano. O grupo tem o objetivo de promover mudanças que tornem o sistema capitalista mais justo e sustentável. Seus compromissos vão desde expandir empréstimos para famílias de baixa renda até plantar árvores em larga escala.

“É urgentemente necessário um sistema justo, confiável e capaz de lidar com os mais profundos desafios enfrentados pela humanidade e pelo planeta”, declarou o papa, conhecido por suas frequentes críticas ao capitalismo. “É preciso assumir o desafio de buscar maneiras de tornar o capitalismo um instrumento mais inclusivo para o bem-estar humano integral.”

As organizações reunidas no conselho somam US$ 10,5 trilhões em bens, US$ 2,1 trilhões em valor de mercado e cerca de 200 milhões de trabalhadores em 163 países. Sua participação demonstra a crescente valorização de práticas sociais e ambientais nos negócios.

Chamados de guardiões do capitalismo inclusivo, os 27 líderes do conselho deverão buscar outras empresas e instituições para se juntarem ao grupo. Uma vez por ano, eles se reunirão com Francisco e o cardeal Peter Turkson, chefe do serviço de desenvolvimento humano do Vaticano, responsável por lidar com questões sociais.

Os membros do conselho terão orientação moral e espiritual do papa e deverão seguir quatro princípios básicos:

  • Igualdade de oportunidades para todos na busca de prosperidade e qualidade de vida, independentemente de condições econômicas, gênero, etnia, religião ou idade.
  • Resultados equitativos para aqueles que têm as mesmas oportunidades e as aproveitam da mesma maneira.
  • Justeza através de gerações, para que uma geração não sobrecarregue o planeta ou tenha benefícios a curto prazo que incorram em custos a longo prazo, para outras gerações.
  • Justeza com aqueles na sociedade cujas circunstâncias impedem uma participação plena na economia.

CEO da E. L. Rothschild e idealizadora do conselho, a empresária americana-britânica Lynn Forester de Rothschild afirmou que o grupo estará focado em ações que promovam uma “verdadeira mudança do sistema”, associadas aos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU.

 

“DEUS NÃO CRIOU A CORPORAÇÃO”

Rothschild condenou as atuais formas de capitalismo em que trabalhadores precisam de assistência social. “Deus não criou a corporação”, disse ela. “A corporação é uma invenção da sociedade para dar responsabilidade limitada aos acionistas. Mas por que a sociedade deveria dar isso se os acionistas tratam mal os funcionários ou envenenam clientes ou degradam o planeta?”

Para a empresária, o capitalismo “criou uma enorme prosperidade global, mas também deixou muita gente para trás” e não tem a confiança plena da sociedade. “Esse conselho”, afirmou ela, “seguirá a advertência do papa Francisco para ouvir o grito do planeta e o grito do pobre e responder às demandas da sociedade por um modelo de crescimento mais equitativo e sustentável.

Além de Rothschild, os guardiões do conselho incluem Brian Moynihan, do Bank of America; Alfred Kelly, do Visa; Ajay Banga, do Mastercard; Sharan Burrow, da Confederação Internacional dos Sindicatos do Comércio; Marcie Frost, do CalPERS, o maior fundo de pensão dos Estados Unidos; Angel Gurría, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico; e Mark Benioff, da Salesforce. Também integram o grupo: Dupont, Ford Foundation, Rockefeller Foundation, Johnson & Johnson e Merck.

“O diálogo mudou radicalmente nesses tipos de coisas”, disse Moynihan à revista Fortune, referindo-se a inclusão e sustentabilidade. “O capitalismo está aqui para fazer a coisa certa, se for administrado de forma apropriada. Estamos levando as pessoas a dizer, ‘Essa é a única coisa certa a fazer, é moralmente a coisa certa a fazer e a coisa humana a fazer.”