A arte de florescer na terceira idade

Existe uma máxima que diz: se conselho fosse bom não se dava, vendia-se. Porém, a filosofia muda de figura quando parte de idosos. Eles dão preciosas sugestões para uma vida longa e saudável, sobretudo nesses tempos de aumento da expectativa de vida.

Não há como negar que uma vida ativa, pautada por objetivos, pela paixão de viver e pela prática de exercícios pode conduzir à chegada dos 100 anos com disposição e juventude. Os anglo-saxões criaram até a expressão late bloomers – os que florescem tarde.

Sugestões desse tipo podem ser encontradas entre os moradores de um povoado agrícola japonês conhecido como a “aldeia dos centenários”, na ilha de Okinawa. Recordistas do Guinness no quesito longevidade, são deles os seguintes conselhos, divulgados no El País:

  • Fique em forma para seu próximo adversário: A prática de exercícios leves e diários aumenta a produção de endorfinas, os hormônios da felicidade.
  • Reconecte-se com a natureza: Ao menos uma vez por semana, tome “banhos de mata” (shinrin yoku), sugeridos por médicos japoneses. A prática estimula a longevidade e aumenta a proliferação de células que protegem contra o câncer.
  • Agradeça: A gratidão gera serenidade e vontade de viver – assim como queixas e irritação constantes disparam os níveis de cortisol, o hormônio do estresse.

Já a espanhola Guadalupe Ruiz-Giménez, de 73 anos, coleciona tantos conselhos que os registrou no livro El arte de envejecer bellamente, lançado este ano em seu país. Estão ali as seguintes sugestões: descobrir quem você é para poder se gostar e se cuidar melhor; viver o presente com atenção plena; e equilibrar o dar e receber amor nas relações.

Giménez assumiu cargos políticos e foi professora universitária até 2002, quando, aos 55 anos, partiu para realizar o sonho de se dedicar à prática e ensinamento de terapias orientais. Acabou abrindo um centro de pilates.

Nada como metas e motivação para prolongarmos nossa estada no planeta com saúde, lucidez e qualidade de vida. Aos 84 anos, o queniano Kimani Maruge começou a frequentar uma escola primária. Dividia a carteira com crianças e usava o uniforme da turma. Igualmente espantosa é a experiência do inglês Brian Lowe, que se formou na Universidade de Cambridge aos 102 anos. Casos assim são um exemplo de onde se pode chegar quando se tem um propósito.

 

CORRIDA E BANHO GELADO EM QUEDA D’ÁGUA

Enquanto escrevo este texto, percebo de onde vem o bem-estar que sinto aos 64 anos, como aconteceu esta manhã. De 1980 a 1990, eu corria todo santo dia na Estrada das Paineiras, perto do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, antes de seguir para o trabalho, no Jornal do Brasil. Meu bom humor e disposição eram notados, sobretudo nessa profissão pautada pela boemia. Por uma série de motivos, porém, abandonei o hábito, mas não deixei de correr em cenários igualmente belos, como o Aterro do Flamengo.

Em fevereiro deste ano, resolvi voltar à experiência das Paineiras, aproveitando que o percurso de quatro quilômetros, incrustado na Floresta da Tijuca, está fechado a veículos. No primeiro dia, eu me impressionei com o efeito de uma corrida na mata e, sobretudo, com o bem-estar do banho gelado numa queda d’água que há no caminho. O canto dos pássaros, o som dos insetos em meio ao silêncio e a presença de micos também fazem toda a diferença.

Hoje foi assim. Cheguei lá pouco antes das 6h, ninguém à vista, a não ser os guardas florestais. Corri – devagar, sem compromisso – até o quilômetro quatro e voltei ao dois, onde fica a ducha que despenca de uns três metros de altura, turbinada pelas recentes chuvas. Difícil descrever a sensação, pela qual agradeço do fundo do coração. Enquanto o planeta e a cidade vivem o drama da pandemia, eu me dou esse luxo, um privilégio rejuvenescedor. Tal qual recomendam os centenários japoneses.

Celina Côrtes é jornalista, escritora e mantém o blog Sair da Inércia.