A marca da inclusão nos Jogos Olímpicos de Tóquio

Os esportes e suas competições sempre oferecem exemplos de superação de limites. Superações físicas muitas vezes são acompanhadas de superações sociais, quando atletas de origem pobre conseguem chegar a eventos mundiais, mesmo que não conquistem medalhas. Os Jogos Olímpicos de Tóquio estão acrescentando um elemento à emoção dos esportes ao se tornarem palco de manifestações de inclusão, por meio de decisões e atitudes tanto de atletas quanto de dirigentes.

O primeiro passo visível para o que está sendo chamado de “jogos da inclusão”, ou ainda “jogos da diversidade”, foi dado pelas próprias autoridades do Japão e do Comitê Olímpico Internacional (COI). Em suas mensagens na cerimônia de abertura, eles destacaram a luta por igualdade, a inclusão e o respeito à diversidade. Para promover a igualdade de gênero, desta vez a bandeira de cada país foi erguida por um casal de atletas.

As mulheres estão tendo sua maior representação na história dos Jogos Olímpicos, somando quase 50% do total de atletas. Elas também são mais numerosas nos quadros administrativos do evento. A árbitra paulista Andreia Regina Silva se tornou a primeira mulher a apitar uma partida de basquete masculino em Olimpíadas.

Já os atletas da categoria LGBTQIA+ são pelo menos 160, segundo levantamento do site OutSports. Trata-se de um número recorde. Em 2016, no Rio de Janeiro, foram 56. E a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard se tornou a primeira atleta transgênero a participar dos Jogos Olímpicos.

 

JOGOS EVIDENCIAM COMBATE AO RACISMO

Igualmente significativo é o número de atletas refugiados presentes: 29 – quase o triplo dos dez que estiveram no Jogos Olímpicos anteriores. Isso foi possível porque eles foram selecionados por meio de um programa de apoio do COI com o objetivo de aumentar a representatividade desses exilados. “Vamos enviar ao mundo uma mensagem poderosa de solidariedade, resiliência e esperança”, declarou o presidente do comitê, Thomas Bach, campeão olímpico de esgrima nos jogos de 1976, pela Alemanha.

A delegação de refugiados foi a segunda a desfilar na cerimônia de abertura. Entre eles estava o judoca Popole Misenga, de 29 anos, personagem de uma história dramática. Sua mãe foi morta durante uma guerra na República Democrática do Congo que matou 6 milhões de pessoas e fez 500 mil refugiados. Aos 9 anos, Misenga foi resgatado depois de passar oito dias na floresta. Acolhido num centro para crianças desamparadas, descobriu o judô e evoluiu no esporte. No Mundial de 2013, no Rio, pediu asilo ao Brasil, alegando maus tratos. E aqui se estabeleceu.

O combate ao racismo também está evidente nos jogos de Tóquio, a começar pela escolha da tenista e ativista Naomi Osaska para acender a pira olímpica na cerimônia de abertura. Filha de uma japonesa e um haitiano, e idolatrada na Ásia, ela foi festejada no ano passado ao deixar uma partida em protesto contra a morte do americano negro Jacob Blake por policiais brancos. Em seguida, causou mais sensação ao postar numa rede social: “Antes de ser uma atleta, sou uma mulher negra.”

 

REBECA ANDRADE DÁ EXEMPLO DE SUPERAÇÃO E INCLUSÃO

Na primeira rodada do futebol feminino em Tóquio, jogadoras das seleções de Chile, Estados Unidos, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido se ajoelharam no campo antes do início das partidas. O gesto antirracista ficou conhecido no ano passado por ocasião da morte do americano negro George Floyd, ao ter seu pescoço pressionado por um policial branco. E ao fim de uma apresentação solo, a ginasta costarriquenha Luciana Alvarado, de 18 anos, ajoelhou-se e ergueu o punho, num gesto típico de integrantes do movimento Black Lives Matter.

Para uma atleta de origem humilde como a paulista Rebeca Andrade, filha de uma empregada doméstica criada na periferia de Guarulhos, não deixou de ser uma atitude inclusiva fazer uma apresentação solo de ginástica artística ao som de uma combinação de “Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Bach, com a melodia do funk “Baile de Favela”, de MC João.

Seu maior exemplo, porém, é o da superação. Aos 22 anos, o esforço de quem na infância andava a pé duas horas para treinar, saiu de casa aos 9 para se dedicar ao esporte e mais recentemente passou por três cirurgias de joelho foi recompensado por apresentações brilhantes que lhe renderam duas medalhas, de ouro e prata. Trata-se de um feito histórico para o Brasil. Rebeca se tornou a primeira de nossas ginastas a subir ao pódio e a primeira atleta brasileira a conquistar duas medalhas na mesma edição dos Jogos Olímpicos.