A retomada das empresas pós-Covid-19

É fato que o mundo mudou. A forma como nos relacionamos com o outro, conosco e com nosso trabalho, as organizações empresariais… nada mais será como antes. O home office virou a realidade de muitos. E pesquisas com empresários dizem que a modalidade vai permanecer mesmo depois que o isolamento passar, em cerca de 74% das empresas.

A pandemia que assolou o mundo inteiro fez com que todos parassem para refletir sobre a vida, os caminhos já percorridos e como seremos depois disso tudo. Voltar ao normal? O normal será novo, não voltaremos a viver como antes.

E quem nos explica um pouco sobre como será as relações profissionais, a retomada das empresas e seus funcionários, é a psicóloga Roberta Borrelli, especialista em gestão de RH e Mestre em Gestão Organizacional. As relações profissionais se estabelecem no dia a dia, nos momentos da parada para o cafezinho e uma troca de conhecimentos. “Com o distanciamento, as reuniões se intensificaram em número e duração, as pessoas passaram a se conectar por meio de câmeras, pois ver o outro nos permite manter a natureza gregária do ser humano”, diz Roberta.

Com a mudança de rotina, Roberta reforça a capacidade que temos de nos adaptarmos e buscarmos práticas que nos permitem seguir com as relações de trabalho, que estão em constante processo de mudança independentemente deste momento de pandemia. “Pensando que temos esta habilidade, ainda que as relações sejam ou não afetadas, mas serão adaptadas, as empresas precisarão estar mais atentas aos colaboradores, atuar com empatia e com os processos de gestão de pessoas como fundamentais para a gestão de mudança organizacional”, analisa a psicóloga.

 

Isolamento social

Em tempos de isolamento social e necessidade de manter um ritmo de trabalho, a prática do home office nos permitiu perceber e experimentar como o nosso cérebro influencia nas nossas funções cognitivas. Durante este período, acompanhamos nas redes sociais as postagens das reuniões, atividades, exercícios, resenha com amigos, a fotossíntese na janela. E, segundo Borrelli, tudo isso está relacionado com o caminho natural que nosso cérebro se utiliza para nos mantermos alegres, dispostos e saudáveis, o que está diretamente relacionado com a nossa capacidade produtiva.

“Experimentar estas práticas trouxe para nós a oportunidade de entender melhor como nosso corpo reage e atua nas condições em que estamos e por meio das atividades que escolhemos. Para muitos, esta pode ter sido inicialmente uma experiência dolorosa e difícil, mas para outros pode ter sido uma grande oportunidade de autoconhecimento e melhor canalização e investimento da sua energia”, diz.

Como em tudo que experimentamos, a forma como cada um de nós reage e lida com as situações que vivencia é que vai trazer à tona as estratégias de enfrentamento para responder de forma individual às condições as quais estamos submetidos.

O psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours, em seus estudos sobre a psicodinâmica do trabalho, nos traz esta reflexão. Ele iniciou suas pesquisas com a hipótese de que o trabalho adoece, mas no decorrer de seu processo identificou que nem todas as pessoas submetidas às mesmas condições adoeciam. Logo, ele passou a considerar que nos utilizamos de estratégias próprias para lidar com as situações que vivenciamos e, é desta forma de reagir que fazemos com que o que vivenciamos se torne um ganho, um aprendizado ou um prejuízo. Dessa estratégia de enfrentamento resulta a nossa condição de saúde mental.

 

A retomada

É fato que a retomada vai ser diferente, pois a pandemia nos apresentou além de novas possibilidades, o entendimento de que podemos realizar nossas atividades, com resultado, por meio de uma rotina que muitos não pensavam ser possível. Diante deste cenário, já temos uma mudança comportamental que vai interferir nas pessoas e nos processos”, garante Roberta. A maneira como essas mudanças interferem nos comportamentos e valores sociais e mercadológicos, vai demandar das organizações um repensar de seus paradigmas organizacionais. A fórmula do sucesso que trouxe a organização até hoje, não necessariamente valerá amanhã.

Estudos do PMI (Project Management Institute) trazem como um dos pilares para a mudança a gestão de pessoas. Quando o processo de mudança é realizado de forma equilibrada, no que se refere a integração entre o projeto e as pessoas, os resultados são significativamente diferenciados. Nota-se, não somente pelos estudos, mas principalmente pela prática organizacional, que as mudanças e as entregas atendem mais favoravelmente ao orçamento, ao prazo e aos objetivos quando há essa interação.

Desta forma, finaliza Roberta, as empresas que não se prepararem para este processo de transição comportamental, que não diz respeito apenas às pessoas, mas também ao comportamento organizacional, podem não sobreviver no contexto da mudança. Como? “É fundamental desenhar a estratégia da empresa para entregar a mudança esperada e, esse processo exige conhecimento, habilidade e, principalmente, pessoas envolvidas e comprometidas com o processo como um todo.”