Bancos planejam abolir termelétricas a carvão na Ásia

Algumas das maiores instituições financeiras do mundo estão elaborando um plano para apressar o fechamento de usinas que geram energia a partir de carvão na Ásia. A proposta deverá ser apresentada na COP26, a conferência do clima da ONU que será realizada em novembro na cidade escocesa de Glasgow. A eletricidade gerada por carvão responde por aproximadamente um quinto das emissões de carbono, o que a torna o maior poluidor do planeta.

Desenvolvido pela seguradora britânica Prudential, o plano está sendo conduzido pelo Banco de Desenvolvimento Asiático (ADB) e envolve HSBC, Citi e BlackRock Real. Seu programa piloto deverá ser lançado num país do Sudeste Asiático antes da COP26, provavelmente Indonésia, Filipinas ou Vietnã. A meta é o que o uso de carvão para gerar energia seja abolido em quinze anos.

À frente da iniciativa, Don Kanak, presidente da Prudential Insurance Growth Markets, afirmou à BBC: “O mundo não consegue atingir as metas de clima de Paris se não acelerar a retirada e substituição da eletricidade gerada por carvão, abrindo um espaço muito maior para renováveis e reservas a curto prazo.”

Kanak acrescentou que as termelétricas a carvão na Ásia são grandes e novas e, se não forem fechadas, poderão continuar funcionando durante décadas. Para que sejam desativadas, explicou, elas deverão ser compradas por parcerias público-privadas.

 

RELUTÂNCIA EM APOIAR GERAÇÃO DE ENERGIA POR COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

Uma característica considerada fundamental do plano é que ele pretende obter dinheiro para a compra de usinas dando retornos menores do que o normal aos investidores. Os desafios enfrentados incluem convencer os proprietários a vender suas usinas e encontrar uma finalidade para os estabelecimentos fechados.

Grandes instituições financeiras têm relutado em apoiar novas usinas de energia gerada por combustíveis fósseis, numa tentativa de atingir metas de clima determinadas pelo Acordo de Paris. São inúmeros, porém, os projetos de novas usinas de energia a carvão na Ásia.

A Agência Internacional de Energia previu que a demanda mundial de carvão aumentará 4,5% este ano, puxada em sua maior parte pela Ásia. O Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática defendeu uma queda de 38% para 9% na geração de energia de carvão até 2030, e para 0,6% em 2030.

Um recente levantamento do think tank Carbon Tracker mostrou que cinco países asiáticos respondem por 80% das novas usinas termelétricas alimentadas por carvão previstas no mundo e que ameaçam o objetivo de limitar o aquecimento global. São eles: China, Índia, Indonésia, Japão e Vietnã.

A Carbon Tracker afirmou que 368 usinas de carvão estão em construção no mundo. Maior consumidor de carvão e maior emissor de gases do efeito estufa, a China é o país com mais projetos de usinas de carvão, segundo o estudo.

 

CRISE CLIMÁTICA ELEVA O PREÇO DO CARVÃO NO MUNDO

Diretora de pesquisa da Carbon Tracker, Catharina Hillebrand Von Der Neyen afirmou: “Esses últimos redutos do carvão estão indo contra a corrente, enquanto a oferta de energias renováveis oferece uma solução mais econômica e apoia as metas climáticas globais.” Ela acrescentou: “Investidores não devem se aproximar desses novos projetos.”

Von Der Neven afirmou que as usinas de carvão contrariam iniciativas tomadas nos Estados Unidos e na Europa para empreender uma transição energética. Embora o carvão ainda represente um custo menor, ela afirmou que energias renováveis, como eólica e solar, tendem a baratear na maior parte do mundo. “O carvão não faz mais sentido do ponto de vista ambiental ou econômico”, disse.

Recentemente, a demanda por energia gerada por carvão nos EUA teve, porém, a maior alta desde 1990, impulsionada pela crise da Covid-19. Por conta disso, a produção no país deve crescer 15% este ano. E o preço do carvão subiu no mundo, impulsionado justamente por extremos climáticos, como secas, que prejudicaram hidrelétricas, e enchentes, que paralisaram parques de energia eólica e solar.

Por ocasião da divulgação do relatório climático da ONU, o secretário-geral da organização, Antonio Guterres, defendeu uma “sentença de morte” ao carvão e outros combustíveis fósseis para conter o aquecimento global. Na contramão dos objetivos da ONU e de grandes economias no mundo, o governo brasileiro anunciou no mesmo dia um programa de incentivo à indústria de carvão.