Britânicos apostam firme em energia de hidrogênio

Se o mundo anda em busca de fontes de energia alternativas para conter o aquecimento global, o Reino Unido anunciou uma escolha significativa, e cercada de certa polêmica: hidrogênio. O governo britânico afirmou que sua estratégia para reduzir ao máximo as emissões de carbono será impulsionar a produção de hidrogênio, que teria potencial para fornecer um terço da energia do país no futuro.

O plano dos britânicos é investir o equivalente a mais de R$ 700 milhões para tornar o hidrogênio sua principal fonte de energia e diminuir as emissões de carbono, em especial na indústria. Especialistas alertam, porém, haver riscos de o hidrogênio poluir ainda mais do que os combustíveis fósseis atualmente utilizados.

Há tempos o hidrogênio é indicado como um combustível limpo que poderia substituir combustíveis fósseis em indústrias como aviação, navegação, aço e química. O governo britânico disse que a primeira ação de sua “revolução de hidrogênio” será ajudar as indústrias poluentes, por meio de subsídios, a desenvolver alternativas energéticas.

O hidrogênio poderia ser usado também como combustível de carros, caminhões, trens e sistemas de calefação domésticos.

 

POTENCIAL PARA TRANSFORMAR MODO DE VIDA

A meta do governo é fazer com que 20 a 35% da energia consumida no país provenha de hidrogênio em 2050, quando espera reduzir a zero suas emissões de carbono. Em 2032, a “economia de hidrogênio” já estaria impedindo emissões de carbono equivalentes à captura de carbono por 700 milhões de árvores.

O secretário de energia, Kwasi Kwarteng, declarou: “Essa fonte de energia limpa cultivada aqui tem o potencial de transformar o modo como levamos nossas vidas.” Segundo ele, os investimentos em tecnologia de hidrogênio irão gerar milhares de empregos e dar ao Reino Unido a liderança no setor.

A ministra de energia e mudança climática, Anne-Marie Trevelyan, reforçou a mensagem: “Hoje, a Estratégia de Hidrogênio envia um forte sinal globalmente de que estamos comprometidos em construir uma economia de hidrogênio de baixo carbono que poderia gerar centenas de milhares de empregos verdes de alta qualidade, ajudar milhões de domicílios na transição para a energia verde, apoiar nossos centros industriais fundamentais a se afastar dos combustíveis fósseis e trazer investimentos significativos.”

Não faltam, porém, preocupações com o impacto ambiental da produção de combustíveis de hidrogênio, que, por si só, consome muita energia. A não ser que possa ser feita com o uso de energias renováveis, como eólica e solar, essa produção poderia gerar uma dependência ainda maior de combustíveis fósseis.

 

EMISSÃO DE CARBONO EM PRODUÇÃO DE HIDROGÊNIO AZUL

Dois tipos de hidrogênio podem ser produzidos: verde e azul. O hidrogênio verde é feito separando-se o hidrogênio e o oxigênio da água por meio de eletrólise, o que exige eletricidade. Já a produção do hidrogênio azul é mais barata: mistura-se gás natural com vapor com ajuda de um catalisador. Isso cria hidrogênio e monóxido de carbono.

Quando se adiciona água à mistura, isso transforma o monóxido de carbono em dióxido de carbono e também cria mais hidrogênio. Teoricamente, as emissões de carbono resultantes podem ser capturadas e armazenadas por meio de uma tecnologia, o que o governo britânico disse pretender fazer. A intenção é enterrar dióxido de carbono.

Pesquisadores das universidades de Cornell e Stanford divulgaram recentemente um estudo segundo o qual o processo do hidrogênio azul pode aumentar em 20% as emissões de carbono do que, por exemplo a queima de gás natural.

Um dos autores do estudo, Robert Howarth, professor de ecologia e biologia ambiental da Universidade de Cornell, advertiu: “Políticos no mundo, do Reino Unido ao Canadá, Austrália e Japão, estão fazendo apostas caras no hidrogênio azul como principal solução para a transição de energia.” O Greenpeace também expressou preocupações.

Howarth aconselhou investimentos apenas em hidrogênio verde feito com energia eólica ou solar. O governo se comprometeu a fazer consultas sobre os mecanismos a serem adotados, mas deixou claro que pretende incentivar tanto o verde quanto o azul.