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Ciência da felicidade: isso existe?

Como venho falando, o objetivo dessa minha série é trazer, semanalmente, conteúdos relevantes sobre a nova e fascinante ciência chamada Psicologia Positiva. Mas afinal de contas, o que é essa tal de Ciência da Felicidade? Ela existe mesmo?

Para que a explicação fique clara, vamos começar com um exercício: Imagine que você, cansado do seu trabalho e rotinas atuais, decida iniciar uma nova fase na sua vida e abrir um negócio só seu. Faz de conta que, após considerar várias atividades, você resolve produzir cerveja artesanal. Você gosta de cerveja e conhece um pouco do assunto, e tem percebido uma expansão acelerada dessa atividade. A ideia soa perfeita: parece até que você encontrou o jeito certo de unir o útil ao agradável!

Decidido, você começa então a buscar mais informações sobre o assunto. Imagine agora que os únicos livros, treinamentos e workshops que você encontra na área de empreendedorismo e produção artesanal de cerveja têm títulos do tipo: “As 5 espécies de lúpulo que darão um gosto horrível a sua cerveja”, “Os processos de fermentação que não dão certo” ou “Como falir no primeiro ano: um manual para o novo empreendedor”. Se você estudasse com toda a intensidade esse material, você estaria pronto para empreender um negócio de sucesso e produzir uma boa cerveja?

A resposta provável é não. Você certamente teria aprendido o que não fazer, o que está longe de ser a mesma coisa.

Mas o que empreender e micro cervejarias tem a ver com Psicologia Positiva?

Foco no positivo

Durante toda a sua história, a psicologia tradicional se debruçou naquilo que não ia bem. Nos relacionamentos que não davam certo, nas doenças e deficiências de caráter e personalidade, nos traumas. A edição de setembro da revista Superinteressante ilustra bem esse fato em sua matéria de capa:

“O Comprehensive Textbook of Psychiatry é uma espécie de enciclopédia da mente humana, publicada e atualizada periodicamente desde 1968. O livro tem mais de meio milhão de linhas e descreve tudo o que se passa dentro das nossas cabeças. Milhares dessas linhas são dedicadas a depressão e à ansiedade. Outras centenas se debruçam sobre a raiva, o medo, a culpa e a vergonha. Mas apenas uma descreve a alegria.” (Revista Superinteressante, ed. 379, p. 32)

Assim como o jovem empreendedor provavelmente pouco ou nada aprenderia sobre como produzir uma cerveja de qualidade e gerir um negócio de sucesso com as leituras disponíveis no exemplo, parece justo afirmar que o estudo da depressão, da ansiedade e da dor não necessariamente permite à psicologia tradicional entender tudo sobre felicidade, amor, alegria.

Do médio ao extraordinário

Tradicionalmente, portanto, o foco de interesse da psicologia era o de resgatar indivíduos do “fundo do poço”, e trazê-los de volta para a linha média onde era esperado que todos estivessem. Essa missão sempre foi e sempre será maravilhosa, principalmente se considerarmos os milhões de indivíduos que foram salvos de depressões e traumas duríssimos. Mais que isso, ela foi necessária para ajudar nossa espécie a enfrentar a ressaca de dor e tristeza deixada pelo século XX.

A psicologia positiva, por sua vez, tem como missão compreender o que vai bem e criar intervenções replicáveis para que todos os indivíduos possam sair da tal média e viver uma experiência extraordinária. Em outras palavras, seu propósito é estudar o que existe de melhor — relacionamentos que sobrevivem ao desgaste do tempo, indivíduos altamente eficazes e produtivos, bem-sucedidos, resilientes, felizes — e descobrir formas de replicar tudo isso às pessoas normais, para que elas também possam sair da linha média e chegar mais longe.

Espaço para todos

Martin Seligman, considerado pai da Psicologia Positiva, deixa claro que não se trata de subtrair a importância da psicologia tradicional, mas apenas de equilibrar um pouco a balança. Em 1998, quando assumiu a presidência da “Associação Americana de Psicologia”, Seligman apresentou essa missão em seu discurso de posse.

Desde então estudos sob esse novo viés vem ganhando espaço nas páginas das revistas científicas de psicologia ao redor do mundo. Quem sabe em mais alguns anos o Comprehensive Textbook of Psychiatry terá espaço igual entre medo, dor, tristeza e amor, resiliência e felicidade.

Ciência ou autoajuda?

Um dos aspectos mais interessantes sobre essa nova ciência é sua simplicidade. É difícil nos deparamos com algum estudo totalmente novo ou que signifique uma reviravolta cognitiva. Ao contrário, a grande maioria dos estudos debruçam sobre temas simples e até triviais e as conclusões muitas vezes se assemelham com orientação de livros de autoajuda.

A grande diferença está no rigor científico que embasa cada descoberta. Enquanto na autoajuda os “conselhos” se referem a experiências exclusivas do autor, na psicologia positiva as intervenções são testadas e comprovadas de forma metódica, sistemática e contando com universo de pesquisa relevante e adequados.

Dito isso, não se preocupe se nas livrarias os livros de Psicologia Positiva ainda estão misturados com os de autoajuda. Tudo ainda é muito novo e pouco divulgado, mas as descobertas da ciência da felicidade são sólidas, com intervenções reais e muito efetivas.

Caminho sem volta

Muito embora o assunto ainda seja novo no Brasil, no mundo ele já é, faz tempo, coisa séria. Martin Seligman é o responsável pelo primeiro MBA sobre psicologia positiva, o Master of Applied Positive Psychology (MAAP), ministrado em 2 anos pela Universidade da Pensilvânia.

Tal Beh-Shahar, PhD em Psicologia, é o responsável pelo curso de maior sucesso na história de Harvard, que vem lotando as salas de aula. Outras várias universidades do mundo já trazem a formação em psicologia positiva como parte do currículo científico.

Diversos artigos científicos são publicados regularmente em periódicos especializados, dezenas de TEDs são divulgados todos os meses com novas descobertas, experimentos e intervenções altamente eficazes. Muita gente tem abraçado essas descobertas e transformado positivamente as próprias vidas.

Ainda não há sinal do surgimento de cursos da Ciência da Felicidade em universidades brasileiras, embora vários cursos e workshops pequenos tenham surgido nos últimos anos. Independentemente desse atraso, entretanto, essa incrível ciência, focada na criação de pessoas e comunidades mais felizes, veio para ficar!

 

Por Henrique Bueno

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