Cientistas analisam a influência da lua sobre o sono

A sabedoria popular atribui à lua mudanças de humor, maior ocorrência de crimes, alterações no desejo sexual e até distúrbios mentais. A ciência mostra, pelo menos, que o satélite da Terra pode ter influência sobre o sono, portanto sobre o nosso bem-estar. Mesmo levando em conta a presença de luz artificial, um estudo indicou que o ciclo lunar afeta nossa capacidade de dormir.

Professor de biologia da Universidade de Washington, Horacio de la Iglesia liderou uma equipe que, durante períodos de até dois meses, monitorou o padrão de sono de 98 pessoas de três comunidades indígenas da Argentina. O trabalho envolveu também a Universidade Nacional de Quilmes, na Argentina, e a de Yales, em Connecticut.

Uma das comunidades onde foi feito o estudo era de indígenas que não tinham acesso a eletricidade. Outra tinha acesso limitado – como, por exemplo, uma única luz em casa. E a terceira era localizada em área urbana, onde os moradores dispunham plenamente de energia elétrica.

Em todas as três comunidades, as pessoas estudadas mostraram as mesmas variações no padrão de sono conforme a lua mudava, em seu ciclo de 29,5 dias. Foram registradas alterações na duração do sono numa faixa de vinte a mais de noventa minutos. Já as variações de tempo em que os participantes permaneceram na cama foram de trinta a oitenta minutos.

Nas três comunidades, o menor tempo de sono foi registrado no período de três a cinco dias anteriores à lua cheia. Já o maior tempo de sono foi verificado nas noites que precedem a lua nova.

 

QUEM MORA EM ÁREA URBANA DORME MENOS

Os resultados foram, de certa forma, surpreendentes. A expectativa inicial dos pesquisadores era de que haveria menos sono e mais atividade nas noites de lua cheia. “Acontece que as noites anteriores à lua cheia são aquelas que têm mais luar durante a primeira metade da noite”, analisou Iglesia.

Nessas noites, explicou ele, a lua brilha mais cedo no alto do céu. Já nos últimos dias da lua minguante, a luz é menos intensa nesse período. E na fase final da lua cheia e durante a lua minguante, a luz também é significativa, mas já no meio da noite, porque a lua aparece mais tarde.

Nos lugares com menos acesso a eletricidade, os efeitos da fase lunar sobre o sono pareceram mais intensos, mas isso não foi surpresa. Quem morava em área urbana ia para a cama mais tarde e dormia menos.

Para corroborar suas descobertas, os pesquisadores compararam seus resultados ao de dados coletados por estudantes que haviam feito uma pesquisa semelhante também na Universidade de Oxford. E encontraram as mesmas oscilações de sono.

 

EFEITOS NOCIVOS DA LUZ ARTIFICIAL SOBRE O SONO

“Juntos, esses resultados sugerem fortemente que o sono humano é sincronizado com as fases lunares, independentemente de antecedentes socioculturais e do nível de urbanização”, escreveram os cientistas em artigo publicado na revista científica Science Advances.

Iglesia afirmou: “Nós, humanos, tendemos a acreditar que de algum modo conseguimos controlar a natureza, e o uso de luz artificial é um bom exemplo disso. Mas acontece que há algumas forças da natureza das quais não conseguimos nos afastar.”

Os efeitos da lua sobre o sono têm sido uma questão controversa entre cientistas. Mas os autores do estudo de Oxford acreditam ter provado que eles existem, em parte porque usaram monitores de pulso para coletar os dados, enquanto pesquisas anteriores se valeram de relatos ou outros métodos. Além disso, eles registraram o padrão de sono em vários ciclos lunares, o que ajudou a filtrar variações individuais.

Iglesia afirmou que os efeitos da lua também podem explicar por que o acesso a eletricidade causa mudanças pronunciadas no padrão de sono. “Em geral, a luz artificial atrapalha nosso ciclo circadiano inato de maneiras específicas”, disse ele. “Ela nos faz ir dormir mais tarde, nos faz dormir menos.”

O ciclo circadiano, ou ritmo circadiano, é o nosso relógio biológico, a forma como nosso organismo se comporta durante 24 horas. Regula sono, apetite, metabolismo, níveis hormonais, temperatura corporal, estado de alerta e pressão sanguínea.