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Cientistas criam algoritmo que interpreta sonhos

Quando Sigmund Freud escreveu A interpretação dos sonhos, publicado em 1889, não poderia imaginar que aquilo que lhe consumiu anos de estudo seria decifrado pela tecnologia. É mais ou menos isso que o especialista em informática Luca Aiello e sua equipe estão fazendo para o Nokia Bell Labs. Eles criaram um algoritmo capaz de processar sonhos coletivamente, identificando padrões de emoções e reações.

Tudo começou a partir da base de dados Dreambank.net, a maior do mundo sobre o tema, onde estão armazenados 38 mil sonhos. Esse material, que poderia ser um tesouro sobre o subconsciente humano, permanecia literalmente adormecido. Até a chegada do italiano Aiello e sua equipe de pesquisadores das universidades de Cambridge (Reino Unido) e Roma Ter (Itália).

O que eles fizeram foi usar inteligência artificial naquilo que Freud gastou muito tempo e massa cinzenta para desenvolver. Na pesquisa, publicada pela revista científica Royal Society Open Science, os estudiosos criaram uma espécie de pegador de sonhos via internet, que processa o conteúdo onírico de milhares de cidadãos anônimos. Com isso, eles conseguem diagnosticar se uma pessoa tem depressão ou ansiedade, por exemplo, a partir da coletiva repetição de padrões.

Até então, a análise de sonhos era feita com base em relatos pessoais ou diários, a partir da interpretação de psicólogos e psicanalistas. O método funciona individualmente, mas não coletivamente. E é isso que a nova tecnologia permite: uma multiplicação sem precedentes da interpretação de sonhos. A automatização do processo tem permitido aos cientistas analisar o sonho em escalas nunca antes imaginadas.

Assim como Freud, os pesquisadores tentam entender se o conteúdo dos sonhos – muitas vezes caótico e aparentemente incompatível com o perfil de quem sonhou – não passa de um eco dos neurônios num corpo em descanso, ou se há algo além.

 

BRASILEIROS TÊM SONHOS ANALISADOS

Para Aiello, a relação entre o sonho e a realidade não é uma via de mão única. “A vida não só impacta nos sonhos, como se escutarmos o que os sonhos nos dizem, também podemos mudar nossa vida”, especulou ele sobre essa possível mão dupla, em entrevista ao El País.

O estudo encontrou ainda distinções de gênero. Se as mulheres costumam ter sonhos mais otimistas e amáveis, os homens primam por conteúdos negativistas e agressivos. Entre aqueles que passaram por guerras, a violência permanece latente, mesmo que já tenham se afastado dos conflitos há muito tempo. “Qualquer experiência importante que tivemos na vida pode deixar uma marca em nossos sonhos do futuro”, acrescentou Aiello.

Outro achado curioso veio de um grupo de deficientes visuais. Eles mostraram dar mais importância ao olfato, e seus sonhos eram frequentados por personagens imaginários. Também havia ali marcantes presenças femininas. O especialista ponderou que esses conteúdos podiam ser antigos, de uma época em que eles teriam sido mais ajudados por mulheres.

Os sonhos dos adolescentes, por sua vez, eram impregnados de sexualidade, o que não surpreendeu os cientistas. “O que sonhamos não são símbolos sofisticados que ocultam significados desconhecidos, e sim um prolongamento de nosso dia a dia”, analisou Aiello.

No Brasil, pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Federal de Minas Gerais (UFMG) e Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisaram os sonhos de pessoas durante a pandemia do coronavírus. Encontraram sonhos de perda, fuga ou perseguição, além de intrusão e vulnerabilidade – resultados do isolamento social. As  descobertas poderão contribuir para a criação de estratégias para o enfrentamento da Covid-19.

Celina Côrtes é jornalista, escritora e mantém o blog Sair da Inércia. 

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