DNA alterado em humanos já pode se tornar realidade

Foi anunciado o nascimento de crianças geneticamente modificadas na China

Discussões éticas em torno da criação de bebês geneticamente modificados abalaram a comunidade científica mundial. Com o uso da ferramenta de edição genética CRISPR/Cas9, cientistas chineses da Universidade do Sul de Ciência e Tecnologia de Shenzen estão recrutando casais com homens HIV positivo na tentativa de gerar crianças via fertilização in vitro sem a presença do gene CCR5. A expectativa é que essas crianças sejam resistentes naturalmente ao  HIV, sarampo e cólera.

Em novembro desse ano nasceram duas meninas gêmeas de um casal envolvido no projeto. He Jiankui, pesquisador que lidera o projeto em Shenzen, notificou que ambas as meninas tiveram seu DNA alterado para prevenir a infecção do HIV. Apesar do aparente sucesso, He preferiu não dar declarações à imprensa sobre as implicações éticas da empreitada. A questão são os limites da edição genética, que poderia ser usada para fins como a eugenia, levando à seleção e discriminação de populações humanas tendo como argumento o aprimoramento genético.

A revista alemã Deutsche Welle lançou um edtorial no dia 27 de novembro alertando sobre as consequências imprevisíveis  da edição genética em humanos. O autor do artigo, Fabian Schmidt, defende que os cientistas envolvidos nesse tipo de pesquisa sofram penalidades severas, e que os debates sobre eugenia sejam reacendidos na comunidade médica e científica. Além das questões éticas envolvidas, o artigo alerta também para o risco que outros genes sejam alterados de forma involuntária, levando a mutações indesejadas e desconhecidas.

Pesquisas de aprimoramento genético poderiam, em tese, “consertar” defeitos genéticos em pais interessados em não transmitir genes indesejados aos seus filhos. A adoção responsável, bem como a fertilização in vitro de doadores, são as soluções mais viáveis para esse problema atualmente disponíveis na sociedade. Além disso, a parcela da população concentrada na pesquisa de He e equipe, quando acompanhada por tratamento médico, não transmitirá o HIV aos seus filhos devido aos medicamentos antirretrovirais que impedem a infecção.

Resta discutir as implicações éticas de pesquisas como a conduzida por He Jiankui e suas consequências para a medicina e vida em sociedade mundiais.