Elo genético entre homossexualidade e reprodução

Teoricamente, é improvável que pessoas que se sintam atraídas exclusivamente por outras do mesmo sexo possam ter muitos filhos biológicos, portanto é de se supor que qualquer gene que predisponha à homossexualidade raramente seria transmitido para futuras gerações. Mas a atração pelo mesmo sexo é bem disseminada entre seres humanos, e agora uma pesquisa indica que, em parte, isso acontece geneticamente – o que seria um paradoxo para a biologia evolutiva.

Um amplo estudo feito a partir de dados de milhares de pessoas constatou que os mesmos marcadores genéticos (características diferenciadas) associados ao comportamento homossexual poderiam ajudar pessoas a encontrar parceiros do sexo oposto e, portanto, a se reproduzir. Isso explicaria por que os genes que predispõem à homossexualidade continuariam sendo transmitidos ao longo das gerações.

Liderado pelo geneticista Brendan Zietsch, da Universidade de Queensland, na Austrália, o estudo foi publicado na Nature Human Behaviour e divulgado na Nature. Seus autores analisaram os genomas de 477.522 pessoas que disseram ter feito sexo pelo menos uma vez com alguém do mesmo sexo. Em seguida, compararam esses genomas com os de 358.426 pessoas que disseram ter feito sexo apenas com pessoas do sexo oposto.

 

SIMULAÇÃO DA EVOLUÇÃO HUMANA POR SESSENTA GERAÇÕES

Numa pesquisa anterior, os cientistas haviam verificado que pessoas que haviam tido pelo menos um parceiro do mesmo sexo tendiam a compartilhar padrões de pequenas diferenças genéticas. Nenhuma dessas variações genéticas parecia afetar muito o comportamento sexual, o que condizia com pesquisas que não encontraram nenhum indício de existência de um “gene gay”. Mas o conjunto de variantes parecia ter um pequeno efeito geral, explicando de 8% a 25% da herança genética.

Os pesquisadores usaram, então, um algoritmo de computador para simular a evolução humana ao longo de sessenta gerações. E constataram que o conjunto de variações genéticas associadas ao comportamento homossexual teria desaparecido, a não ser que de algum modo ele ajudasse as pessoas a sobreviver ou a se reproduzir.

Zietsch e sua equipe decidiram testar se esses padrões genéticos poderiam fornecer uma vantagem evolutiva, aumentando o número de parceiros sexuais de uma pessoa. Selecionaram apenas participantes exclusivamente heterossexuais pelo número de parceiros que eles diziam ter tido e constataram que aqueles com muitos parceiros tendiam a ter marcadores genéticos encontrados em pessoas que haviam tido um parceiro do mesmo sexo.

Os autores do estudo verificaram também que pessoas que haviam tido relações homossexuais compartilhavam marcadores genéticos com outras que se descreviam como abertas a novas experiências e dispostas a correr riscos. E encontraram os mesmos padrões em heterossexuais que tinham genes ligados ao comportamento homossexual e em pessoas classificadas por eles como fisicamente atraentes.

 

FOCO EM COMPORTAMENTO SEXUAL, E NÃO EM ATRAÇÃO SEXUAL

Zietsch e seus colegas sugeriram também que características como carisma e desejo sexual poderiam ser compartilhadas geneticamente pelos dois grupos, embora isso não tenha sido incluído nos resultados da pesquisa, por ter sido considerado uma suposição.

Outros cientistas questionaram se os dados da pesquisa podem oferecer conclusões definitivas. Os próprios autores reconheceram a limitação de seu estudo. Todos os participantes moravam no Reino Unido ou nos Estados Unidos e eram descendentes de europeus. Os questionários que eles responderam tinham como foco o comportamento sexual, e não a atração sexual. E a maioria nasceu numa época em que a homossexualidade era um tabu cultural, ou mesmo ilegal.

Para Julia Monk, ecologista e bióloga evolutiva da Universidade de Yale, em Connecticut, nas sociedades modernas o comportamento sexual e a reprodução ocupam um lugar diferente daquele que ocupavam antigamente, portanto é difícil avaliar seu papel na evolução. Atualmente, exemplificou ela, as pessoas podem ter mais parceiros sexuais por ser mais fácil curar doenças transmitidas sexualmente. Além disso, os controles de natalidade e os tratamentos para fertilidade eliminariam vantagens reprodutivas oferecidas pelos genes.