De lixão a jardim: uma feliz recuperação no Quênia

Era uma vez um terreno baldio que servia de depósito de lixo. Ficava num bairro pobre de Nairóbi. Boa parte dessa sujeira provinha de moradores de bairros ricos da capital queniana. Mal se via uma planta ali. Mas isso já faz oito anos. Hoje, a área abriga um aprazível jardim comunitário, graças a uma ação conjunta de moradores liderados por Charles Gachanga, de 45 anos.

Onde antes só havia lixo, crianças agora brincam na grama e moradores relaxam à sombra de abacateiros e ao som de pássaros. Rappers costumam se apresentar ali. Com caminho ladrilhado e decoração colorida, o jardim é um pequeno oásis verde em Dandora, distrito de uma cidade de 4,3 milhões de habitantes.

Gachanga cresceu ali, numa época em que o terreno baldio fedia a lixo. Hoje membro da Liga para Transformação de Dandora, ele contou à agência Reuters como se deu a mudança. “Nós chegamos e limpamos. Não tínhamos um centavo.” De início, ele teve a ajuda de três amigos.

Sobre a motivação para recuperar a área, Gachanga afirmou: “Nós tivemos aquele foco, tivemos aquela paixão de ver que podíamos transformar nosso bairro.”

O jardim recebeu o nome de Semente de Mostarda, e a semente vem dando frutos: o projeto acabou inspirando uma série de iniciativas semelhantes na cidade. Só em Dandora já surgiram vinte áreas verdes do tipo.

 

‘ISSO NOS FAZ SENTIR QUE A NATUREZA AINDA ESTÁ VIVA’

Nesse jardim pioneiro, o custo de manutenção é coberto com contribuições dos moradores – que pagam menos de um dólar por mês – e doações de organizações estrangeiras, entre as quais a Awesome Foundation. Quem não pode pagar, trabalha como voluntário, plantando árvores ou limpando a área.

Frequentadores do Semente de Mostarda só tem elogios à iniciativa. “Isso nos faz sentir que a natureza ainda está viva”, comentou o poeta Javan Ofula. Já o produtor de vídeos James Macharia afirmou que o espaço faz bem a sua alma e seu negócio. Ele disse ter gravado cinquenta vídeos de música ali. “Tenho muitos clientes que querem gravar aqui porque tenho acesso ao lugar”, explicou.

Pássaros voltaram a frequentar a área, e crianças estão tendo aulas de observação de aves. Evans Otieno disse esperar que seu trabalho de jardineiro ali inspire outros jovens. “A próxima geração está crescendo de maneira positiva, sabendo que as pessoas merecem viver numa área limpa e verde”, afirmou.

Gachanga contou que uma das dificuldades que teve para transformar a área foi fazer a drenagem de águas ali. Mas seu entusiasmo mostra que o esforço valeu a pena: “Se não se pode mudar a lei, nós podemos mudar Nairóbi. E se mudamos Nairóbi, podemos mudar o Quênia, podemos mudar a África e, possivelmente, uma parte maior do mundo.”