Meu pai, minha mãe, solidão, liberdade e escolhas

Escrevo no momento em que meu pai se encontra hospitalizado, em estado grave de saúde, por conta da Covid. Tudo foi muito rápido e ainda me sinto zonzo com a velocidade dos acontecimentos.

Minha cabeça está tentando se acostumar com sua possível partida, mas vivo um paradoxo. Não quero pensar na sua ausência, mas tenho consciência de que preciso estar preparado para isso. E, mais, preciso me manter firme e forte para ajudar minha mãe, que ainda está juntando os caquinhos.

Minha mãe está se lamentando. Ela diz que não sabe viver sozinha depois de mais de sessenta anos de casada. Acho que entendo o que se passa em sua cabeça, até porque vivi uma experiência que também me levou a pensar em uma vida solitária e seus desdobramentos. A diferença entre nós é que tive tempo para me preparar, enquanto ela não.

Houve um tempo que refleti muito sobre solidão. No início, a palavra solidão aparecia para mim como uma espécie de desconexão do mundo, como uma ruptura e um isolamento não desejados, como uma falta de identificação com tudo e com todos, talvez até uma sensação de incompreensão. Para mim, solidão estava profundamente conectada com tristeza e melancolia.

Em algum momento, descobri que minhas caraminholas estavam me levando para um caminho de autovitimização. Consegui repensar a solidão como uma oportunidade de aprender a viver comigo mesmo, conhecer meus mais profundos pensamentos, ir mais fundo em sentimentos que só ficavam na superfície e mergulhar na minha mente. Depois aprendi uma nova palavra: solitude, que é não sofrer ao se sentir sozinho, mas sim saber aproveitar o momento. Não sei como explicar tudo isso a minha mãe, especialmente porque o principal sentimento dela é de alguém que perdeu o chão.

A situação do meu pai me colocou mais uma vez diante da palavra morte. A primeira vez que isso me bateu forte foi em 2012, quando fui hospitalizado e minha saúde ficou bem complicada. Nessa época, pensei na morte… na minha morte. Depois, encarei um novo “fantasma da morte” em 2016, quando minha mãe ficou gravemente doente devido à síndrome de Guillain-Barré. Ela conseguiu se recuperar. Mas a convivência latente com a morte veio com a minha amada Regina, ao longo de mais três anos, em função do seu tratamento de câncer.

Acho que estou mais frio e racional para a morte. Ela não me assusta. Certamente estou mais cascudo devido às experiências que descrevi acima. Mas não é só isso. Acho que a principal razão para encarar a morte como algo natural é minha espiritualidade. Essa é uma jornada que venho trilhando nos últimos anos. A espiritualidade vem me ensinando que a morte é um passo da vida, apenas um passo. Por isso não gosto da palavra morte, me parece que existem palavras muito mais adequadas para traduzir o que ela realmente representa dentro da minha cabeça.

Ouvir as lamentações da minha mãe me provoca inquietude, desperta a sensação de estar diante de alguém que se sente preso em uma jaula. Ela não vê saída. É difícil conversar com alguém que tem quase 90 anos de idade, que tende a olhar o passado como a sua vida, e não o futuro. Para ela, o melhor da vida já se foi, e eu compreendo tal pensamento. E tudo fica mais complexo quando ela imagina um futuro sem meu pai.

Ao ler o livro A bailarina de Auschwitz, de Edith Eva Eger, eu me deparei com o seguinte parágrafo:

Ser livre é viver o presente. Se estamos presos ao passado, “Se ao menos eu tivesse ido lá em vez de aqui…” ou “Se ao menos eu tivesse me casado com outra pessoa…”, é porque estamos vivendo em uma prisão criada por nós mesmos. Acontece o mesmo se passamos o tempo no futuro, dizendo, “Não serei feliz até eu me formar…” ou “Não serei feliz até encontrar a pessoa certa”. O único lugar onde podemos exercer nossa liberdade de escolha é no presente.

Victor Frankl, em seu livro Em busca de sentido, diz: Liberdade de escolher a minha própria reação para qualquer situação.

Minha atual visão de vida está centrada na combinação das duas abordagens acima. Acho que posso resumir da seguinte forma: A minha vida é a liberdade de escolher como quero viver e reagir perante cada situação que surge na minha frente no dia a dia. A liberdade é o dia de hoje, não é futuro, nem passado.

Tudo é uma questão de escolha.

Tudo que eu viver virá de dentro de mim.
Tudo que eu vejo ou interpreto da vida está dentro da minha cabeça.
Eu escolho onde quero investir as 24 horas que recebo de presente todos os dias.
Eu escolho o que me alimenta e me valoriza.

Posso perder tudo, posso estar diante de um contexto duríssimo de vida ao meu redor, o céu da minha existência pode ficar cinza, mas a forma como reajo aos fatos e aos percalços do meu dia é uma escolha minha, que vem exclusivamente da minha cabeça. A minha vida é a minha mente.

Eu escrevi no meu blog, muitas vezes, o que passei em 2020… tudo que ocorreu comigo, minha passagem para os 60 anos de idade, a saída do emprego e tudo mais. Ganhei tempo de vida para pensar e investir em mim. Sinto que cresci muito. Sinto que evoluí e tenho mais clareza da vida. Meu sabático tem sido verdadeiramente transformador e libertador. Quero que minha vida seja um eterno sabático. Liberdade se tornou uma palavra essencial para mim.

Meu porto seguro é o meu Amor, Valéria. Foi a liberdade que a colocou em minha vida. É com ela que viverei intensamente o novo capítulo da minha vida. Com ela cresço. Ela me leva para espiritualidade, filosofia, minimalismo, o empreendedorismo libertador, o gosto por buscar coisas novas, da simplicidade bela e valiosa, do descobrir novos caminhos e novas possibilidades. Valéria me liberta. Com ela consigo voar mais alto e mais longe.

O momento que vivo com Valéria, a possível partida de meu pai, a angústia de meu irmão diante da situação e o despertar do sentimento de vazio sentido por minha mãe: tudo isso se mistura na minha cabeça. Tudo isso me faz pensar e repensar sobre a solidão, sobre os fantasmas que assombram minha mãe, os medos paralisantes que rondam sua cabeça, alguns reais, mas muitos imaginários. Acho que minha mãe está vivendo um momento de medo, a descoberta de que não temos controle de nada e a existência de uma enorme âncora presa em sua perna arrastando-a para o passado.

Não paro de pensar em meu pai. Gostaria de estar a seu lado no hospital, cuidando dele, mas a Covid o mantém isolado do mundo. Ele está em coma induzido. O contato é apenas telefônico, com os médicos. Minha principal preocupação é seu bem-estar, que ele não esteja sentindo dor e sofrendo, que sua possível recuperação não seja a qualquer custo. Tenho conversado sobre terminalidade com meu irmão. Os médicos já sabem como pensamos. É tudo perturbador. Não paro de pensar no último dia de meu pai antes da internação, na minha casa, quando eu penteava seus cabelos finos e brancos diante do espelho, ele se vendo com dificuldade e esboçando um sorriso.

Sinto a ausência de meu pai, mas me regozijo por tudo que ele conquistou e me proporcionou. Tento domar e domesticar minha mente para me manter calmo, revendo a linda vida que ele construiu até agora. Sei que o segredo do meu bem-estar e sanidade está na forma como penso e encaro tudo isso.

Hoje estou triste, sem vontade de sorrir. Mas me sinto livre e em paz.

Atualização:

Meu amado pai partiu na data de 5/09/2021. Seu estado de saúde piorou nas últimas duas semanas em função da Covid. Mas estou certo de que ele partiu em paz e de bem com a vida. Foi para o céu. Meu pai era amado por todos, sem exceção. Tudo que sou, e conquistei, devo aos meus pais. Foram eles que me transformaram no ser humano que sou hoje. É maravilhoso olhar para trás e ver tudo que meu pai construiu ao longo de sua vida, com doçura, generosidade e amor. Meu pai era um anjo entre nós. Seu olhar nos envolvia. Vou sentir muita saudade das nossas conversas, dos seus conselhos e do seu sorriso fácil e genuíno… mas também uma imensa felicidade e orgulho por ser filho desse pai maravilhoso. Me sinto abençoado. Minha mãe está bem, equilibrada e resignada, aprendendo a encarar o novo contexto de vida. Eu e meu irmão também estamos bem. Com carinho.

Mauro Segura, engenheiro e analista de sistemas, com pós-graduação em marketing e experiência profissional em tecnologia e comunicação. Mauro tem seu próprio blog e colabora com Meio&Mensagem e Café Brasil, entre outros.