Fungos viram matéria-prima em indústrias diversas

Sim, cogumelos podem ser saborosos. O surpreendente é que eles também se prestam a funções inusitadas e ainda benéficas ao meio ambiente, o que representa um avanço no momento em que buscamos alternativas a materiais fósseis. O micélio – um emaranhado de filamentos que faz parte da estrutura dos fungos e os prende à terra – está sendo usado para criar sapatos, caixões, embalagens e material de construção, entre outros produtos.

Uma das vantagens dessa matéria-prima é que ela se alimenta de lixo e resíduos agrícolas, contribuindo para reduzi-los e purificá-los, explica a DW em reportagem. Outras vantagens: é um material biodegradável que utiliza pouca água, representa uma solução com baixa emissão de carbono, favorece uma economia circular e pode ser cultivado verticalmente, economizando espaço.

O micélio tem a função de absorver nutrientes para o fungo e também faz uma “comunicação” com outras plantas. Por isso, os fungos vêm sendo chamados de “internet da natureza”.

Na Holanda, o pesquisador e designer Maurizio Montalti trabalha há dez anos com o micélio. Segundo ele, existem mais de 5 milhões de fungos que constituem “um reino em si mesmos”. São “agentes fundamentais que permitem a transformação não apenas da nutrição, mas também de informações para sistemas vivos”, diz ele à DW.

 

MATERIAL É USADO POR ADIDAS, GUCCI E STELLA MCCARTNEY

A Mugu, empresa de Montalti, cria produtos de micélio, entre os quais móveis e painéis acústicos para absorção de som. Ali, essa matéria-prima é cultivada em resíduos de milho, pó de café e outros alimentos descartados.

“Há muita empolgação hoje em dia quando se fala do micélio”, afirma o designer. Embora o material já venha sendo usado pela Adidas e por grifes como Stella McCartney e Gucci, o desafio, diz ele, é criar um produto competitivo no mercado.

Também na Holanda, a Loop é pioneira na fabricação de caixões de micélio, chamados de “casulos vivos”. A ideia é que o corpo se decomponha num caixão compostável, tornando-se parte de uma solução para recuperar a biodiversidade do planeta.

A empresa argumenta que os caixões de madeira representam árvores derrubadas e isolam os corpos dos microorganismos que os consomem; e que a cremação destrói os nutrientes do corpo e ainda polui o ar.

Na Indonésia, a Mycotech cultivava cogumelos comestíveis antes de passar a usar fungos para criar uma alternativa sustentável a produtos de couro, em especial sapatos. À frente da empresa, Adi Reza Nugroho afirma que o material evita a morte de animais e pode ser cultivado verticalmente, economizando espaço. Além disso, o consumo de água é pouco, a emissão de carbono é baixa e o processo não exige produtos químicos.

 

REDUÇÃO DO LIXO QUE VAI PARA ATERROS SANITÁRIOS

Alimentando-se de resíduos agrícolas, o micélio utilizado na Mycotech demora alguns dias para crescer a ponto de ser colhido, tingido e processado, transformando-se num material robusto, flexível e respirável que pode durar anos. Na Alemanha, a Adidas já vende um modelo de tênis de micélio.

Como se alimentam de lixo, os fungos também são usados para desintoxicar resíduos, tornando-os materiais limpos e utilizáveis, inclusive plásticos não recicláveis. Nos Estados Unidos, a Mycocycle utiliza micélio para remover toxinas de asfalto e outros materiais de construção que, de outro modo, não poderiam ser reutilizados. Com isso, reduz o lixo num país onde 85% do espaço de aterros sanitários já foi utilizado.

Segundo a empresa, o micélio alimentado por lixo é resistente a fogo e água e pode ser usado na fabricação de produtos como isopor, isolante, embalagens e material de construção.

Em 2014, Nova York ganhou a Hy-Fy, uma torre construída com 10 mil tijolos orgânicos, feitos basicamente de resíduos e fungos. Na Alemanha, a cidade de Frankfurt exibe num parque uma casinha cuja estrutura é feita de compensado e micélio.

Para Vera Meyer, professora de biotecnologia da Universidade Técnica de Berlim que participou da iniciativa, os fungos são microorganismos importantíssimos, que podem fazer a transição de recursos fósseis para recursos de base biológica.