O afeto e a serenidade do Dalai Lama nas telas

The Great 14th (O Grande 14º Dalai Lama) é o presente da Frame of Mind Films para celebrar os 85 anos do Dalai Lama, completados no último dia 6. Com 82 minutos de duração, o documentário, dirigido por Rosemary Rawcliffe, inglesa radicada nos Estados Unidos, começa com um bem-humorado e franco diálogo entre o líder tibetano e seu irmão Nahri Rimpoche. E segue desfilando marcos de sua vida, como a percepção de impermanência a partir de uma serena observação da imensidão do mar.

“Ele fala da infância, de como preferia brincar a estudar, da adorada mãe, de como gosta de gente simples, emanando a sua própria simplicidade”, descreve a budista Sheila Costa, que teve a oportunidade de assistir ao filme em sua estreia virtual global, nos dias 27 e 28 de junho – Sheila conviveu com o Dalai Lama na década de 1980, com o intuito de aprofundar seus estudos, e conduz a meditação no Centro Shiwa Lha, na cidade do Rio de Janeiro.

As risadas escancaradas do Dalai Lama, mescladas com sua irreverência, pontuam o filme, que conjuga sua história e suas convicções numa espécie de autobiografia oral. São abordados seu papel de líder político e espiritual, e raras imagens antigas do Tibete e da Índia ajudam a ilustrar sua trajetória.

Ao longo dos 82 minutos, o líder espiritual identifica a literatura budista como a grande fonte de informação para o mapa da mente, lembra a importância do conhecimento de nosso sistema emocional e mostra que, apesar de estar sempre lendo e pensando, conecta-se à vida diária. Em depoimentos informais, ele destaca ainda a importância da busca do autoconhecimento e do que chama de caminho do bem. Deixa claro que a verdadeira ética está no bem-estar do próximo.

 

RELAÇÃO DE AFETO COM LÍDER CHINÊS

A imposição de abandonar o Tibete é descrita por ele como uma oportunidade que teve para viajar, conhecer o mundo e a realidade. Sua condição de refugiado na cidade indiana de Dharamsala – decisiva para o Prêmio Nobel da Paz recebido em 1989 – também é vista com bons olhos pelo líder tibetano: “Foi muito, muito bom. Por causa da política agressiva da China.”

O Dalai surpreende ao mencionar uma relação de afeto que mantinha com o líder chinês Mao Tsé-Tung antes da invasão do Tibete. Outra declaração curiosa é a de que ele nunca quis propagar o budismo. “Seria um desrespeito com as outras religiões”, explica.

O líder budista defende a fé como um instrumento para melhorar o ser humano e destaca que nunca se deve matar em nome da fé ou de uma religião. Sua prioridade, afirma, é o desenvolvimento de uma ética secular em que as pessoas possam ser felizes, cada qual com sua religião e filosofia. Para o Dalai Lama, a mente pacífica e a pesquisa científica são capazes de mudar o mundo.

 

FUGA PARA A ÍNDIA AOS 23 ANOS

Sua história tem início na aldeia de Takster, onde nasceu em 1935. Filho de agricultores, foi batizado de Lhamo Dhondrub. Aos 2 anos, foi reconhecido por monges tibetanos como a reencarnação do 13º Dalai Lama, Thubten Gyatso. Aos 4, foi separado da família e levado para o Palácio de Potala, na capital, Lhasa.

Sua rigorosa preparação começou aos 6 anos, com uma eclética educação de forte base humanista, integrada por aulas de filosofia budista, arte e cultura tibetana, gramática, inglês, astrologia, geografia, história, ciências, medicina, matemática, poesia, música e teatro. Empossado como líder espiritual do Tibete, tornou-se o 14º Dalai Lama, passando a se chamar Jamphel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso.

Em 1950, aos 15 anos, ele assume o poder político no Tibete, após seu país ser invadido pela China. Quatro anos depois, vai a Pequim tentar acordos com Mao Tsé-Tung para libertar seu país – tentativa, porém, frustrada. Em 1959, a China envia tropas a seu país para sufocar uma rebelião. É quando, aos 23 anos, o Dalai Lama foge do Tibete e enfrenta uma caminhada de treze dias pelas montanhas do Himalaia para se refugiar na Índia, onde vive até hoje, dando continuidade a sua missão espiritual.