O poder da música contra o estresse na pandemia

Há quem aumente o volume e saia dançando pela casa. Outros preferem encontrar uma posição confortável para apreciar a melodia ou prestar atenção na letra. Situações assim foram descritas por pessoas entrevistadas para uma pesquisa que analisou o comportamento de ouvintes de música durante a pandemia. Se já se sabia que a música pode trazer bem-estar, o que o estudo constatou foi que as pessoas passaram a usá-la conscientemente para aliviar o estresse.

Realizada pelo Instituto Max Planck de Estética Empírica, na Alemanha, a pesquisa, intitulada Viral Tunes, ouviu 5 mil pessoas de seis países em três continentes. Mais da metade dos alemães, americanos, britânicos, franceses, indianos e italianos que responderam ao questionário apresentado na internet disseram que a música os ajudava a enfrentar o estresse emocional e social durante o confinamento imposto pela pandemia.

A pesquisa confirmou o que outros estudos vêm indicando há décadas, e que bons ouvintes percebem: a música pode melhorar o ânimo e trazer sentimentos de felicidade. Tem efeito terapêutico. Age sobre o cérebro e o corpo, e pode reduzir o ritmo cardíaco.

Diretora do departamento de música do Instituto Max Planck, Melanie Wald-Fuhrmann atentou, porém, para constatações do estudo diretamente relacionadas à pandemia: “Não foi a música, mas o uso consciente dela que foi decisivo para lidar com o confinamento”, disse ela à DW.

 

DIFERENTES PRÁTICAS MUSICAIS PARA MELHORAR O ÂNIMO

Segundo Melanie, muitos entrevistados disseram que optaram por ouvir música sozinhos e sem fazer nada paralelamente, agindo de forma diferente do modo como ouviam música antes do isolamento social.

O estudo mostrou também que, na falta de pessoas queridas por perto, as pessoas usaram mensagens reconfortantes de músicas para lidar com suas emoções. “Muitas vezes, nas letras das músicas, um discurso direto é feito com ‘você’ ou ‘nós’, o que faz com que os ouvintes se sintam envolvidos como indivíduos”, observou a pesquisadora.

Os entrevistados relataram ainda a adoção de diferentes práticas musicais para melhorar o ânimo. Em uma delas, pessoas que moram juntas mudaram as letras de canções conhecidas para falar da situação que viviam e ainda gravaram vídeos interpretando essas músicas. “Nesses vídeos, reconhecemos a nós mesmos e a nossa situação. É honesto, verdadeiro e ajuda a unir socialmente na quarentena”, analisou Melanie.

Bandas populares – como a Die Ärzte, na Alemanha – também compuseram músicas sobre a pandemia, o que ajudou a despertar um sentimento de comunidade, disseram os pesquisadores. Essas novas composições foram rotuladas de “corona music”.

 

BRASILEIROS DISSERAM USAR MÚSICA PARA AFASTAR ANSIEDADE

Estudos já mostraram que a música favorece a liberação de endorfina no organismo, dando bem-estar às pessoas. Há indicações também de que ela é capaz de aumentar a produção de anticorpos, fortalecendo o sistema imunológico. Mas para melhorar o ânimo é precisou ouvir a canção certa, como atesta o neurocientista Jacob Jolij, do Instituto de Psicologia Experimental da Universidade de Groningen, na Holanda.

Desde 2015, Jolij analisa a influência de ritmo, letras e melodias sobre ouvintes que ele entrevista. Segundo o neurocientista, 77% das pessoas disseram ouvir música para ter motivação.

Jolij chegou a montar uma playlist com as músicas mais capazes de melhorar o humor das pessoas. Em primeiro lugar está “Don’t stop me now”, do Queen, seguida de “Dancing queen”, do Abba, “Good vibrations”, dos Beach Boys, e “Uptown girl”, de Billy Joel.

No Brasil, conhecido pela musicalidade de seu povo, as lives musicais de artistas populares se tornaram frequentes durante a pandemia. Em diversas cidades, não faltaram músicos se apresentando em varandas de edifícios.

No ano passado, a plataforma de streaming Deezer ouviu 2 mil usuários de Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo para uma pesquisa. Do total, 42% disseram sentir ansiedade e 90% afirmaram que ouviam música para se sentir melhor.