ONG inicia corredor verde ao longo do Araguaia

A ONG Black Jaguar Foundation (BJF) assumiu um ambicioso objetivo de reflorestamento no território brasileiro: criar um corredor verde de 2.600 quilômetros de extensão e vinte de largura ao longo dos rios Araguaia e Tocantins. A implantação já foi iniciada, em meio ao desafio de conseguir a adesão de cerca de 24 mil proprietários rurais cujas terras se encontram na área do projeto.

O Corredor de Biodiversidade do Araguaia atravessará os estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pará e Maranhão. Para isso, serão necessários o reflorestamento de 1 milhão de hectares e o plantio de 1,7 bilhão de árvores. O custo estimado do projeto é de US$ 2,2 bilhões (R$ 12,3 bilhões).

As primeiras 100 mil mudas do corredor foram plantadas em 2018 numa área de cerca de 130 hectares abrangendo os municípios de Santana do Araguaia (Pará) e Caseara (Tocantins), na zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Entre as espécies havia baru, pequi, capuaçu e buriti. No fim do ano passado, mais 30 mil mudas foram introduzidas.

O Corredor de Biodiversidade do Araguaia foi  idealizado em 2008 pelo biólogo Leandro Silveira, do Instituto Onça-Pintada. Silveira criou o Fundo para a Conservação da Onça-Pintada, cujos objetivos incluem o estudo de cinco espécies importantes da região.

 

ORGANIZAÇÃO FOI CRIADA POR AMBIENTALISTA HOLANDÊS

Estudos preliminares indicam que a criação do corredor, associada a sistemas de produção agroflorestal na área restaurada, poderá trazer benefícios ambientais e econômicos da ordem de US$ 21,1 bilhões (R$ 117,7 bilhões) em cinquenta anos.

A iniciativa permitiria a captura de 263 milhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono e contribuiria para reduzir a erosão do solo em até 527 toneladas. Além disso, a venda de produtos de madeira poderá ser uma fonte de renda e é prevista a criação de mais de 37 mil empregos.

A BJF foi fundada em 2009 pelo empresário e ambientalista holandês Ben Valks, de início para produzir um documentário sobre a onça-preta na natureza. A organização acabou dando uma guinada em seus objetivos. A onça virou o ícone da ONG cuja missão se tornou recuperar e preservar a natureza.

“Estamos confiantes de que nosso projeto terá sucesso. Precisamos acreditar no lado positivo da humanidade, para que possamos agir e pelo menos fazer um esforço para restaurar o equilíbrio entre a humanidade e a natureza”, disse Valks ao site Mongabay.

 

LIGAÇÃO ENTRE VEGETAÇÃO NATIVA E ÁREAS REFLORESTADAS

Um dos grandes desafios do projeto é conquistar a adesão dos donos de milhares de propriedades rurais situadas na área do corredor verde. Para isso, a ONG pode se valer do Código Florestal. Este requer que todos os proprietários de áreas na Amazônia e no Cerrado protejam uma parte de suas terras, transformando-a em Área de Preservação Permanente (APP) – cuja função inclui a preservação de recursos hídricos – ou Reserva Legal (RL), para preservação de vegetação nativa e uso dos recursos ambientais de forma sustentável.

Segundo a economista Andrea Lucchesi, coordenadora do estudo de viabilidade do projeto, foi feito um levantamento das propriedades que obedecem a lei. “Também descobrimos a localização e o tamanho das áreas degradadas nas RLs e APPs e quantificamos os benefícios e custos ambientais, econômicos e sociais do futuro corredor”, disse ela ao Mongabay.

Outro desafio da BJF é garantir a continuidade do corredor, que promoverá a ligação entre a vegetação nativa restante e áreas reflorestadas. Estas últimas passariam a predominar nas propriedades rurais.

Os proprietários rurais que aderirem ao projeto da BJF ganharão um plano de restauração adequado a suas áreas, com estimativas sobre a degradação das terras e sementes e mudas mais viáveis economicamente.

Conselheiro da BJF e pesquisador da Embrapa Agropastoril, Ingo Isernhagen afirmou ao Mongabay: “O Brasil tem um grande passivo em áreas degradadas, e a iniciativa da BJF é um grande laboratório a céu aberto para a restauração de ecossistemas no centro do país, na região da fronteira agrícola.”