Países se unem por acesso a energias renováveis

Um grupo de 23 países – incluindo Estados Unidos, China e Brasil – anunciou investimentos de peso para tornar mais acessível, seguro e atraente o uso de energias limpas. Um dos objetivos do programa é garantir estabilidade ao fornecimento de energias renováveis em redes elétricas até 2030. Para isso serão aplicados US$ 248 milhões.

A superação da variabilidade inerente ao uso de energias renováveis é considerada crucial para aumentar sua utilização em redes de eletricidade. A energia proveniente de turbinas de vento varia porque a velocidade do vento varia; e a energia vinda de células solares muda de acordo com a presença de nuvens e outros fatores.

O esforço dos governos para resolver esta e outras questões será feito por meio do Mission Innovation 2.0. Trata-se da segunda fase de um programa de pesquisas de tecnologia limpa lançado em 2015, em paralelo ao Acordo de Paris, que determinou metas de redução de emissão de carbono, à qual é atribuída a mudança climática.  As pesquisas abrangem utilização de hidrogênio, transportes de longa distância e remoção de dióxido de carbono do ar.

Os 23 países respondem por 90% dos investimentos mundiais em energia limpa, que, de acordo com o programa, já superam em US$ 5,8 milhões anuais os valores registrados em 2015. A ideia é aumentá-los ainda mais. Outros países que integram a missão são: Áustria, Austrália, Canadá, Chile, Dinamarca, Finlândia, França, Reino Unido, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Marrocos, Holanda, Noruega, Arábia Saudita, Suécia, Emirados Árabes Unidos e Comissão Europeia (em nome da União Europeia).

 

META DE ACORDO É ZERAR EMISSÃO DE CARBONO ATÉ 2050

Ambientalistas afirmaram que os investimentos anunciados correspondem a apenas uma fração do custo de muitos trilhões de dólares representado por danos que serão causados pela mudança climática se esta não for controlada. O Acordo de Paris prevê zerar a emissão de carbono até 2050.

“Alcançar emissões zero em 2050 exigirá ações urgentes para 2030, tanto para implementação de tecnologias de energia limpa que já temos quanto para desenvolver, demonstrar e ampliar as inovações de que precisaremos para descarbonizar totalmente a economia global”, disse o ex-senador John Kerry, representante dos EUA.

Os responsáveis pelo programa afirmaram que metade da redução de emissões de carbono globais prevista no Acordo de Paris depende de tecnologias que existem hoje, mas que estão ainda em fase de demonstração ou protótipo. Essas tecnologias incluem energia de hidrogênio, baterias de armazenamento avançadas e combustíveis sem emissão de carbono.

As soluções para o problema da variabilidade da energia nas redes incluem a criação de estoques de energia e sistemas inteligentes que respondam à variação da demanda. Especialistas afirmam que as energias eólica e solar já estão amplamente disponíveis, mas é preciso desenvolver sistemas compatíveis com essa disponibilidade.

 

IMPLEMENTAÇÃO EM DETRIMENTO DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO

Cada país que integra o programa concordou em formar grupos de indústrias movidas por hidrogênio limpo. Alguns querem produzir parte desse hidrogênio a partir de gás natural e reduzir a emissão de CO2 por meio de tecnologias de captura de carbono. O programa visa também ao desenvolvimento de navios capazes de funcionar com combustíveis limpos, como hidrogênio verde, amônia verde, metanol verde e biocombustíveis avançados.

“John Kerry, Bill Gates e outros estão errados sobre a importância de P&D (pesquisa e desenvolvimento). A implementação do que já temos é o que importa e é para isso que precisamos de grandes investimentos”, disse Tom Burke, do think tank de clima E3G, à BBC.

Uma recente análise feita pela organização humanitária Tearfund, dedicada a assistência e desenvolvimento, mostrou que o Grupo dos Sete (que reúne os países mais desenvolvidos) estava investindo mais em empresas de combustíveis fósseis do que naquelas de energias renováveis. A crise da Covid-19 resultou em ajuda às indústrias de aviação e automobilística sem que houvesse tentativas de forçá-las a reduzir as emissões de carbono em troca da ajuda, indicou o estudo.