Pandemia reforça tendência a carro por assinatura

Se você sonha com um carro zero quilômetro e não tem dinheiro ou disposição para tanto, há uma alternativa disponível no mercado – e em franco crescimento. Montadoras de automóveis estão oferecendo o serviço de carro por assinatura.

Locadoras de automóveis já vinham disponibilizando o serviço, mas este era visto como um aluguel de carro por tempo prolongado. Com a entrada das montadoras no negócio, o quadro expandiu. Elas começaram a perceber a oportunidade mais recentemente, em parte por conta da uma queda na venda de carros associada à crise sanitária.

A pandemia também reforçou a tendência ao carro por assinatura porque muita gente está preferindo adotar um meio de transporte individual para evitar o risco de contaminação ao compartilhar o interior de um veículo com um motorista de táxi ou Uber.

Segundo a revista Exame, pelo menos sete montadoras aderiram à modalidade: Audi, Caoa, Fiat, Jeep, Nissan, Renault e Volkswagen.

No serviço de assinatura de carro, o cliente não precisa se preocupar com documentação nem arcar com os custos de revisão – e da inevitável desvalorização do veículo usado. Ele paga o combustível e eventuais multas de trânsito. E ajusta sua relação com o automóvel: não mais de posse, mas de uso.

 

RENAULT CONTABILIZA 1.500 CONTRATOS EM DOIS MESES

O custo mensal da assinatura inclui impostos e taxas como IPVA, seguro e manutenção preventiva. E a quilometragem rodada é estabelecida no contrato. Este pode ter duração de um a três anos.

“Em pouco mais de dois meses conseguimos 1.500 contratos”, disse Ricardo Gondo, presidente da Renault do Brasil, à Exame. Ele admitiu que a pandemia fez aumentar a procura pelo serviço de assinatura, mas acrescentou que “no médio e longo prazo será uma tendência, assim como já é na Europa”.

O valor do serviço depende do modelo do carro, do prazo do contrato e da quilometragem mensal estabelecida. Na Renault, o carro preferido tem sido o Kwid Outsider, cujo custo mensal para o assinante varia de R$ 1.100 a R$ 1.440.

O jornal Estado de S. Paulo comparou o custo de um Volkswagen Voyage 1.6 nas modalidades pagamento à vista, financiado e por assinatura. A primeira sai por R$ 46.363, a segunda por R$ 54.213 e a última por R$ 35.072.

 

OPORTUNIDADE DE TESTAR CARRO ELÉTRICO NO BRASIL

Paulo Miguel Junior, presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, afirmou à Exame que 8% da frota de 1 milhão de veículos das locadoras estão adotando programas de assinatura. Essa participação, acredita, tende a dobrar em dois anos. Segundo ele, a maior procura tem sido por consumidores de 35 a 45 anos e os carros populares são menos vantajosos nessa modalidade.

A revista pinçou a história do economista Lucas Dolabela, 34 anos. Ele passou quatro anos nos Estados Unidos e voltou ao Brasil em 2019. De início, deslocava-se de Uber, até que passou a temer a contaminação pelo coronavírus. Optou, então, pela assinatura de um Chevrolet Onix sedã, da Localiza.

Dolabela passou a pagar R$ 1.400, “incluindo a desvalorização equivalente a R$ 16 mil”, para rodar 1 mil quilômetros por mês. E se viu livre de custos com seguro, impostos e manutenção, bem como da burocracia que envolve esses pagamentos.

Na opinião de Ricardo Bacellar, do setor automotivo da KPMG, montadoras e consumidores ainda estão em fase de aprendizagem no serviço de assinatura de carro. “A oferta tem de ser sedutora o suficiente para atrair o cliente para essa modalidade”, disse ele.

Bacellar afirmou que o serviço pode vir a favorecer a retomada da produção de veículos no país, bem como a introdução de carros elétricos: “Hoje, a compra é inviável para a maioria das pessoas, pelo alto custo, mas, se o consumidor tiver a oportunidade de testar o elétrico e ver que a infraestrutura funciona, é possível que, no futuro, as montadoras tenham até escala para a produção local.”