Sistemas agroflorestais mudam paisagem no Nordeste

Há três anos, quando começou a implantar um sistema agroflorestal no município de Poções, em pleno Semiárido baiano, o engenheiro Nelson Araújo Filho enfrentou a desconfiança de vizinhos. Eles previam uma depreciação da área por conta do plantio de palma forragueira, um cacto usado para alimentar cabras, cuja criação é um símbolo da pobreza na região. Hoje, Araújo é capaz de causar inveja em outros moradores com sua área verde de 1,8 hectare.

Ao longo dos solos áridos do Nordeste brasileiro, outros agricultores vêm transformando a paisagem de suas terras por meio da implantação de sistemas agroflorestais, muitas vezes incentivados por coletivos, organizações e movimentos sociais. Os resultados são promissores, embora muitos ainda se recusem a abrir mão de técnicas tradicionais que podem se mostrar prejudiciais ao solo.

“Quando comecei aqui, o solo era compactado e não produzia nada”, contou Araújo à BBC News Brasil, diante de uma paisagem bem diferente dos pastos degradados que a cercam.

 

RECUPERAÇÃO DE TERRAS SEM USO DE AGROTÓXICOS E IRRIGAÇÃO

Os sistemas agroflorestais se baseiam no funcionamento dos ecossistemas originais das regiões onde são implantados. Com o passar do tempo, a recuperação da vegetação abre caminho para outras espécies, como árvores frutíferas que, por sua vez, atraem aves, abelhas e animais silvestres. E sem o uso de agrotóxicos ou irrigação. Nas terras de Araújo, a Caatinga recuperada recebe orvalho toda noite.

O agricultor convencional que cultiva poucos alimentos pode ter resultados ruins se a chuva não vier ou se seu plantio for atacado por uma praga. Já o sistema agroflorestal pode permitir colheitas o ano inteiro.

Os sistemas agroflorestais combatem o aquecimento global, segundo cientistas, e ainda livram os agricultores de extremos climáticos que prejudicariam suas plantações. E o Semiárido brasileiro é considerado uma das regiões do mundo mais atingidas pela mudança climática, que provoca secas mais fortes e temperaturas mais altas, desertificando o solo, como alertou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em seu mais recente relatório anual, divulgado em agosto.

De acordo com o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas, a desertificação do solo – causada por seu uso intensivo –  atinge aproximadamente 13% do Semiárido brasileiro, região que se estende por 12% do território nacional, abarcando nove estados do Nordeste e ainda o norte de Minas Gerais.

 

MELHORA DE PRODUTIVIDADE E CONSERVAÇÃO DE BIODIVERSIDADE

Em seu relatório de 2019, o IPCC afirmou que os sistemas agroflorestais “podem contribuir para a melhora da produtividade de alimentos ao mesmo tempo que ampliam a conservação da biodiversidade, o equilíbrio ecológico e a restauração sob condições climáticas em mutação”.

Em Poções, Araújo contou que de início plantou a famigerada palma forragueira e outras espécies típicas da Caatinga que sobrevivem à desertificação. Com o tempo, passou a podar a vegetação e usar os restos para adubar a terra. Aos poucos o solo foi se recuperando.

No Crato, município do Ceará, o agricultor Antonio Gomides França começou a plantar sua agrofloresta há um ano e meio e também relatou reações adversas de vizinhos. Ali também os resultados têm sido bons, a ponto de ele planejar fazer o mesmo em outra área.

França pretende ainda criar um banco de plantas para incentivar outros moradores a fazer o mesmo. Ele explicou: “Você chega com a estrutura, implanta, vai para a próxima área, até criar um circuito de agrofloresta popular na região.”

 

Fonte: Artigo de João Fellet e Felix Lima para a BBC News Brasil.