Um exemplo de controle da pandemia no Alto Xingu

Se no Brasil o número de mortes por Covid-19 cresce a cada dia, nas oito aldeias dos Kuikuro, no Alto Xingu, a situação é bem diferente. Ali, ninguém morreu entre os novecentos habitantes. E os infectados somaram 160, uma proporção baixa em relação a muitas regiões do país. O bom resultado pode ser explicado pela organização, disciplina, solidariedade e perspicácia que esse povo indígena demonstrou.

O líder Yanamá Kuikuro contou à BBC que, ao tomar conhecimento da pandemia, lembrou-se de uma história que ouvia o pai contar, quando ainda era criança, sobre mortes provocadas por uma epidemia de sarampo. Na época, dizia o pai, o surto devastou muitos povos do Xingu, como os Kamaiurá e os Kalapalo.

“Quando vimos no noticiário da televisão que o vírus estava matando muitas pessoas, pensamos: a gente tem que se organizar, tem que fazer lockdown”, afirmou o líder.

Yanamá vive na aldeia Ipatse, a maior do povo Kuikuro, com 390 habitantes. Ele disse ter percebido a gravidade da situação durante uma viagem a Brasília no ano passado. Na volta, conversou com o irmão Afukaká, cacique da aldeia, que logo entendeu o risco que todos corriam. Os indígenas ali têm acesso à internet, o que facilitou a comunicação para as ações empreendidas.

“Reunimos várias vezes a comunidade no centro da aldeia antes de chegar o vírus aqui”, disse Yanamá. Com isso, explicou, vieram os questionamentos: Como enfrentar o vírus? Quem poderia ajudá-los? A primeira iniciativa foi construir uma casa de isolamento.

Em seguida, os Kuikuro cuidaram de fazer parcerias com universidades e ONGs internacionais. Com uma campanha, conseguiram levantar R$ 200 mil, dinheiro que usaram para comprar cilindros de oxigênio, remédios, camas e outros itens que julgaram necessários. Eles também contrataram uma médica e um enfermeiro.

Tudo isso aconteceu antes de o vírus chegar ali. O Kit-Covid, distribuído gratuitamente no Parque do Xingu, foi rejeitado. “A nossa organização aqui não aceitou, porque não tem estudo”, afirmou Yanamá, referindo-se à falta de comprovação científica.

 

INDÍGENAS INFECTADOS FICARAM ISOLADOS EM SUAS CASAS

O líder passou a pedir aos moradores que não saíssem de suas aldeias e a recomendar medidas de higiene das mãos e uso de máscaras. “Muita gente ficou com raiva de mim porque pensavam que eu estava mentindo”, disse ele. “Aí, depois que chegou esse vírus, eles viram realmente e acreditaram.”

O vírus chegou às aldeias dos Kuikuro por volta de junho do ano passado, trazido por indígenas de uma cidade próxima. “Quando a gente viu a Covid-19, eu pensei, ‘nossa, se morrerem todos os anciões e a liderança, não vai ter mais a nossa cultura’”, relatou Yanamá.

O isolamento dos infectados em suas casas permitiu controlar a disseminação do coronavírus. Eles receberam alimentos e atendimento médico. Alguns tiveram que ir a um hospital improvisado, mas ninguém precisou de equipamento de oxigênio. O pajé e a medicina tradicional também foram incluídos na mobilização.

Uma campanha em redes sociais arrecadou R$ 44 mil, dinheiro com o qual os indígenas compraram cestas básicas e ainda itens que consomem normalmente, como anzóis, linhas de pesca, fósforos e combustível para o gerador de energia. Depois, a vacina começou a chegar de avião, carro e barco.

A chegada da vacina foi acompanhada de fake news, contou Yanamá. Muita gente dizia que a população indígena não deveria tomá-la, disse ele, explicando que, mais uma vez, a solução foi a conversa.

Os Kuikuro permanecem em estado de alerta. Preocupado com o crescimento da epidemia e a chegada de uma nova variante do vírus, Yanamá afirmou: “A nossa luta aqui não acabou ainda.”