Vacina contra Covid-19 com chegada prevista para o Natal

Com o anúncio da chegada, em dezembro, da primeira vacina contra a Covid-19, podemos estar diante dos capítulos finais da pandemia do novo coronavírus. Chamada AZD1222, a vacina está sendo produzida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e pelo conglomerado farmacêutico global AstraZeneca. Trata-se do mais promissor imunizante até agora, em meio a 133 estudos registrados na Organização Mundial de Saúde (OMS) para o combate ao vírus. E envolve o Brasil não só nos já iniciados testes da terceira e última fase, em 5 mil humanos, como pela participação na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na futura produção nacional.

Assinado no fim do mês passado, o acordo entre a Fiocruz e a AstraZeneca começa pelo processamento final da vacina, o que inclui envase, rotulagem e controle de qualidade. Para isso, a Fiocruz vai antecipar US$ 30 milhões dos US$ 127 milhões que o imunizante custará ao país. Durante o envase das primeiras 30 milhões de doses do ingrediente farmacêutico ativo (IFA), a instituição vai dominar a tecnologia para fabricar aqui as próximas unidades. Quinze mil doses serão liberadas em dezembro para grupos de risco – profissionais de saúde e idosos – e a segunda metade, em janeiro de 2021. Se tudo correr bem, o acordo prevê a produção de mais 70 milhões de doses no Brasil.

O processo será executado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), o maior parque produtor de imunizantes da América Latina, pertencente à Fiocruz e com sede na cidade do Rio de Janeiro. Maurício Zuna, diretor do Bio-Manguinhos, esclareceu ao Globo: “Estimamos que o custo da vacina será de US$ 1 por dose. Os outros US$ 97 milhões vão para a AstraZeneca, para a compra do IFA que será processado pela Fiocruz e para as despesas de tecnologia.” Ou seja, por essa causa tão promissora, nós pagaremos para ver.

 

ADAPTAÇÃO A PROTOCOLO

A Fiocruz já atuou de forma semelhante na produção de vacinas como a tríplice viral – contra sarampo, rubéola e caxumba – desenvolvida pelo microbiologista americano Maurice Hilleman e introduzida no mercado pela Merck, em 1971. A instituição inaugurou sua produção de imunizantes em 1937, a partir de um acordo com a americana Fundação Rockfeller, responsável pelo ingrediente ativo da vacina contra a febre amarela.

O Bio-Manguinhos, contudo, terá de se adaptar para produzir a vacina contra a Covid-19, já que nunca usou o novo protocolo adotado por Oxford, diferente do tradicional, que insere uma versão modificada do vírus, ou partes dele, na solução que será injetada no corpo. Os pesquisadores de Oxford optaram por novas abordagens, de comprovação menor, porém mais rápida. Eles usaram o adenovírus do chipanzé, que recebeu uma sequência genética do coronavírus, o que provoca uma resposta imune ao ser injetado no corpo humano.

Para atender à nova demanda, os turnos de trabalho da fábrica terão de ser ampliados em mais linhas de produção, enquanto outras serão interrompidas. “O que precisamos conhecer é o segredo industrial da vacina, se o equipamento precisa de adaptações ou se teremos de recorrer a um equipamento novo”, avaliou Zuna.

 

TESTES EM VOLUNTÁRIOS

O Reino Unido iniciou no fim de abril a fase três da vacina, com testes clínicos em humanos para checar a eficácia, contando com 1.100 voluntários. Como houve queda nos índices de contaminação por lá, a experiência foi estendida a África do Sul, Índia, Estados Unidos e Brasil, países com altos índices de contágio. Aqui, a testagem em 5 mil voluntários foi iniciada em São Paulo, no fim de junho, e prossegue no Rio de Janeiro e na Bahia. Como todos os voluntários precisam estar expostos ao vírus, foram priorizados sobretudo os profissionais de saúde que atuam na pandemia e que têm idade entre 18 e 55 anos.

Todos recebem doses aleatórias de vacinas contra a Covid-19 e contra meningite, e passam a ser monitorados semanalmente na primeira quinzena após a imunização, para análise dos sintomas e testes sorológicos, bem como para avaliar se houve produção de anticorpos. A etapa seguinte ocorrerá no fim de julho, depois em 60 dias e, por último, após um ano.

Antes disso, o imunizante passou pela fase um, ao ser inoculado em animais e adultos saudáveis para testes pré-clínicos. Foram avaliados efeitos colaterais, como evitá-los e observado se o sistema imunológico produziu anticorpos. Na fase dois, o produto é inoculado em humanos para testagem da segurança do imunizante e da intensidade da resposta imunológica.

Agora, é torcer pelo acerto dos resultados e das previsões, para que o fim do pesadelo da pandemia já comece a despontar no horizonte em dezembro.

Celina Côrtes é jornalista, escritora e mantém o blog Sair da Inércia.