Britânicos propõem taxar sal e açúcar em alimentos

O governo britânico está analisando a possibilidade de cobrar impostos sobre sal e açúcar como forma de melhorar a qualidade da comida consumida no país. A proposta consta de um relatório independente encomendado pelo próprio governo e apresentado pelo empresário Henry Dimbleby, principal membro não executivo do conselho do Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais.

Intitulado Estratégia Nacional de Alimentos, o estudo propõe uma reforma no sistema alimentar do Reino Unido para proteger o Sistema Nacional de Saúde, melhorar a saúde do povo e defender o meio ambiente. Cofundador da rede de fast food Leon e da Associação de Restaurantes Sustentáveis, Dimbleby afirmou que o objetivo da medida é incentivar modificações na fórmula dos alimentos para reduzir a quantidade de açúcar e sal.

O relatório recomenda taxar três libras esterlinas (aproximadamente R$ 21) por quilo de açúcar e seis libras (R$ 42) por quilo de sal vendidos no atacado a produtores de alimentos, restaurantes e serviços de catering. O dinheiro obtido seria usado para ampliar o número de refeições escolares gratuitas e melhorar a dieta de famílias de baixa renda.

O primeiro-ministro Boris Johnson disse não se sentir atraído a cobrar impostos a mais, mas acrescentou que estudará o relatório e prometeu dentro de seis meses apresentar uma resposta com propostas para futuras leis.

 

OBESIDADE CONTRIBUI PARA ÍNDICE DE MORTALIDADE ELEVADO

“A única maneira de quebrar o ciclo de junk food criado pela interação entre o nosso apetite e os interesses comerciais das empresas é aumentando os impostos sobre sal e açúcar de modo a forçar as empresas a modificar suas fórmulas”, disse Dimbleby à BBC.

O empresário afirmou que o alto índice de obesidade entre os britânicos tem sido um fator importante no índice de mortalidade “tragicamente elevado no Reino Unido”. A reforma proposta, segundo ele, poderia reduzir 38 calorias na dieta de uma pessoa diariamente, ajudando-a perder dois quilos por ano.

Já Ian Wright, da Federação de Alimentos e Bebidas, afirmou que obesidade e comida estão relacionados à pobreza. “Precisamos de medidas para resolver a pobreza e ajudar as pessoas a fazer as escolhas que precisam fazer”, disse.

Para o psicólogo David Halpern, conselheiro do governo, os impostos sobre sal e açúcar permitiriam ajustar o comportamento dos britânicos. Ele comparou a medida ao tributo cobrado sobre refrigerantes que está em vigor no país desde 2018 e levou fabricantes a modificar a fórmula de seus produtos, diminuindo o açúcar. Com isso, disse ele, o açúcar nos refrigerantes caiu a um terço da quantidade e as vendas aumentaram.

 

SISTEMA DE ALIMENTAÇÃO CAUSA PERDA DE BIODIVERSIDADE

O relatório propõe também que médicos procurem receitar frutas, legumes e verduras aos pacientes para incentivar uma alimentação saudável. E recomenda a agricultores métodos sustentáveis, bem como a divisão do uso de suas terras em porções iguais para agricultura intensiva, agricultura favorável ao meio ambiente e reserva natural.

Segundo o estudo, a má alimentação contribui para a morte de 64 mil pessoas por ano e custa 77 bilhões de libras (quase R$ 550 bilhões) à economia britânica. Metade da população com mais de 45 anos teria problemas de saúde relacionados à dieta. Hábitos alimentares ruins prejudicam também o meio ambiente, diz o relatório, uma vez que a produção de comida responderia por um quarto das emissões de gases do efeito estufa.

O sistema de alimentação é considerado o maior causador da perda de biodiversidade, secas, desmatamentos e poluição de águas. E a segunda maior causa da mudança climática, depois da indústria de energia.