Um chef para matar a fome de vítimas de catástrofes

O chef José Andrés é capaz de conciliar estrelas no Michelin com ações humanitárias que matam a fome de milhões de pessoas vitimadas por desastres naturais no mundo. Se os elogios a seu talento culinário são grandes, maior ainda têm sido as manifestações de reconhecimento à sua solidariedade, seja por meio de uma constelação de prêmios ou de ajuda financeira a sua ONG, World Central Kitchen (WCK). Semanas atrás, o homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, deu-lhe US$ 100 milhões.

Bezos concedeu a Andrés o Courage and Civility Award, um prêmio de reconhecimento a “líderes que buscam soluções com coragem e civilidade”. No Twitter, onde tem 1 milhão de seguidores, o chef agradeceu: “Esse prêmio não pode alimentar o mundo, mas é o começo de um novo capítulo para nós e nos permite pensar além do próximo desastre natural.”

Ele afirmou ainda que “um prato de comida é um prato de esperança, é a maneira mais rápida de reconstruir a vida das pessoas e das comunidades”, e que “a comida pode mudar o mundo”. Semanas antes, a WCK recebera o Prêmio Princesa das Astúrias da Concórdia, um dos mais importantes da Espanha, pela ajuda humanitária durante a pandemia.

Nascido na Espanha, Andrés chegou a Nova York aos 21 anos, com US$ 50 no bolso. Trinta anos depois, tem mais de trinta restaurantes, a grande maioria nos Estados Unidos, onde ele ficou conhecido também por livros de culinária e pela presença na mídia. Em sua terra natal, popularizou-se por apresentar um programa de culinária na TV.

 

‘PRECISAMOS DE UMA NOVA ORDEM MUNDIAL DE EMPATIA’

Em 2010, uma viagem ao empobrecido Haiti, a fim de prestar ajuda a vítimas de um terremoto, mudou sua vida. Pouco depois, ele e a mulher, Patricia, fundaram a WCK. No ano passado, a pandemia trouxe mais uma virada. A ONG passou a ser ainda mais solicitada para prestar ajuda a populações atingidas por desemprego. Nos EUA, entregou mais de 36 milhões de refeições. Na Espanha, 1,5 milhão. Tudo isso com a colaboração de dezenas de chefs e milhares de voluntários.

A WCK andou ajudando também mexicanos desamparados na fronteira americana e indonésios vitimados por um terremoto. Outras ações foram motivadas por explosões no Líbano, incêndios na Austrália e violência na Faixa de Gaza. Mais recentemente, a ONG socorreu desabrigados nas enchentes da Alemanha.

Ao voltar há pouco da Índia, onde a WCK serviu 400 mil refeições a pessoas vitimadas pela crise da Covid-19, Andrés contou sobre a ajuda humanitária ali prestada: “Centramos nos hospitais. Estivemos em 65 a 70 [hospitais] de 17 cidades.” Ele acrescentou: “Precisamos de uma nova ordem mundial de empatia, não fazendo discursos, mas sim com ações.”

Andrés já esteve duas vezes (2012 e 2018) na lista das cem pessoas mais influentes do mundo elaborada pela revista americana Time. Em 2015, o presidente Barack Obama lhe entregou a Medalha Nacional de Humanidades. Prêmios e homenagens proliferam no currículo do chef, mas não se comparam à quantidade incalculável de refeições que ele já proporcionou a famintos mundo afora.