A verdade no caminho para a saúde da relação

Lá se foi o fim do ano, esse período singular. Quanto mais um ano se aproxima do fim, mais próximos ficamos de questões que fingimos não perceber que empurramos para a frente como se simplesmente não fossem conosco. Como se o tempo para olhar para elas de perto e perceber que o papo é contigo e tem que ser reto pudesse jamais acontecer. Pois bem, essa é a mágica do enrolar consigo, que nessa época do ano enfraquece um pouco, como se estivéssemos diante de um deadline disfarçado de festa, chamada Réveillon.

Sou terapeuta, atuo fundamentalmente com casais, pois há muito tempo, a iniciar por questões pessoais, percebi que relacionamento é o que possuímos de mais importante na vida. E isso não é trazido por mim como uma percepção: há vasta literatura científica hoje que nos traz comprovações empíricas de que bons ou maus relacionamentos podem determinar a diferença entre uma vida longeva e saudável e uma vida mais curta e bem mais distante da saúde que necessitamos ter para suportarmos a força que fazemos para viver e, claro, para sermos felizes.

Há um estudo, iniciado na Universidade de Harvard em 1938 e chamado Grant Study, em que a grande questão a ser respondida é “O que realmente nos faz felizes na vida?”. Nesta que é a mais longa de todas as pesquisas do gênero, foram analisados todos os fatores de mais de setecentos homens desde a sua juventude até a idade adulta. O grupo é tão heterogêneo que encontramos ali desde os maiores fracassados até um presidente dos Estados Unidos.

Naturalmente, as conclusões desse estudo são diversas, desde fatores como o alcoolismo ter sido a maior causa de divórcio, o tabagismo ter sido sem dúvida alguma a maior causa de morte, e passando por importantes constatações, como a de que uma boa ou má relação com os pais na infância gerou adultos mais ou menos ansiosos, e inclusive mais ou menos satisfeitos com a própria vida após os 75 anos de idade.

Contudo, a maior e mais efetiva conclusão desse estudo é a de que o maior fator de longevidade e de uma vida satisfeita e feliz depende diretamente da qualidade dos relacionamentos nutridos ao longo da vida.

 

QUEM FLORESCE ENCONTRA CONDIÇÕES DE AMADURECIMENTO

Os pesquisados que demonstraram estar mais satisfeitos com seus relacionamentos tinham um corpo físico mais saudável e um cérebro mais saudável, com menor incidência de doenças como câncer e Alzheimer, dados extremamente significativos.

Pessoas que mantiveram relações de qualidade demonstraram ser mais seguras durante a vida, não apenas para implementar projetos e sustentá-los, mas para serem “elas próprias”, para serem e se portarem de maneira mais original perante o mundo e perante as pessoas com as quais se relacionavam.

“Claro que nenhum relacionamento é perfeito, mas estas são qualidades que fazem com que a gente floresça”, afirma o psiquiatra americano Robert Waldinger, atual diretor do estudo, em sua palestra TED facilmente encontrada na internet.

Florescer, por esta ótica, vai muito além de apenas sentir-se feliz, até porque a felicidade às vezes nos parece efêmera e, apesar de num dia nos sentirmos tomados da mais pura sensação de felicidade, no outro, por razões alheias à nossa vontade ou não, podemos simplesmente nos ver tomados de profunda tristeza sem ao menos conseguir vislumbrar uma forma de sair desse estado.

Para quem floresce a dinâmica é outra. Um indivíduo que floresce alcança condições próprias, suas, que passam necessariamente por um amadurecimento para enfrentar as dores do mundo. O filósofo Luis Felipe Pondé nos diz que amadurecer, dentre tantos outros fatores, passa pela capacidade de aprendermos a seguir na vida carregando pequenas ou grandes doses de tristeza conosco. A tristeza pode não ser uma escolha, ao passo que a felicidade, sim. Por isso a psicologia positiva (ciência que embasa todo o estudo a que nos referimos) afirma que a felicidade deve passar por uma escolha consciente do indivíduo.

 

SABER EXPRESSAR GRATIDÃO, MAS JAMAIS SUBSERVIÊNCIA

O indivíduo que floresce consegue identificar os seus pontos de interesse na vida e não fica à mercê de modismos ou amarras que às vezes carrega desde uma infância familiar em que valores que não são os seus lhe foram impostos, promovendo uma vida de lutas internas com angústias cujos motivos ele nem ao menos consegue enxergar. Imposições familiares, culturais e religiosas submetem o sujeito a um apequenamento de seus potenciais, às vezes por toda uma vida.

Esse exercício de ser menos para se adequar, de deixar de ser quem desejamos para ser o que desejam que sejamos – vivendo como eternos devedores de um credor implacável que, pelas nossas contas, jamais verá sua dívida saudada, aqui, em metáfora das relações familiares que exigem uma postura de submissão ao núcleo de origem e a suas mais precárias e originais regras de convívio, no que Freud tratou como “narcisismo das pequenas diferenças” – é, sem dúvida, contrário a qualquer possibilidade de relacionamento saudável.

O indivíduo que floresce atinge a maturidade para aceitar o fato de que a quem nos presenteou com a vida devemos eterna gratidão, mas jamais subserviência. Saber essa diferença e exercer uma gratidão digna e amorosa sempre por todos que o ajudaram a construir sua jornada é caminho obrigatório para quem busca sua individualidade, deseja encontrar o seu lugar no mundo, ao lado de quem escolher estar. E para quem possa, nas relações que desenvolver na vida, no lugar de apequenar-se, de ser menos, ser mais, acessar todo o seu poder pessoal, exercê-lo sem culpa, às claras, sem medo, sem mentiras, sem censuras que não são suas, nutrir-se dessa força e seguir construindo relações edificantes.

O ser que floresce encontra sentido nas coisas que faz na vida, se afasta de tantos “por ques” e se aproxima de “para ques”, respondendo mais facilmente indagações profundas de sua vida como “para que exerço esse trabalho?”, “para que desejo ser pai ou mãe?”, “para que estou ao lado dessa pessoa?”.  E assim, encontrará propósitos no lugar de dúvidas e incertezas.

O que fazemos na vida, nos ensina esse estudo, deve fazer significado antes para nós mesmos e depois para os outros. A felicidade começa por si, e não pelo outro. Uma pessoa infeliz jamais conseguirá contribuir com a felicidade do outro, mesmo que dedique sua vida com exclusividade à vida do outro – fenômeno de “dedicação” facilmente visto em relacionamentos infelizes, miseráveis, em que, por exemplo, pais e mães abrem mão do pouco que somaram na vida para se realizarem por meio dos filhos, um fardo passado à geração seguinte, a um ser que nada tem a ver com os fracassos ou êxitos que seus pais tiveram antes que viessem ao mundo.

 

A MELHOR APOSTA NA FELICIDADE E NUMA VIDA SAUDÁVEL

Outro exemplo são casamentos que se arrastam por conta desses mesmos filhos, escorados na mentira, na traição, desprovidos de qualquer prazer, movidos a ressentimento, mantenedores de pactos morais hipócritas, submetidos a uma cultura social julgadora ainda mais nefasta, matrimônios mantidos por medo da divisão do patrimônio e por inúmeras outras razões distintas da única razão que uma relação como essa deve de fato ser mantida, qual seja, a verdade sobre o desejo mais íntimo e sincero de estar com o outro.

Waldinger afirma:  “Conflitos minam, de fato, a nossa energia. E acabam com a nossa saúde.” Relacionamentos saudáveis, sem sombra de dúvida, são a melhor aposta que um ser humano pode fazer na sua felicidade e numa vida saudável.

O também pesquisador George Vaillant nos diz: “é que o calor dos relacionamentos ao longo da vida tem o maior impacto positivo na satisfação com a vida.” E afirma categoricamente: esse estudo nos demonstrou que felicidade é amor. Ponto final.

Bem, para encerrar esse papo de início de ano, afirmar o que seria então um relacionamento saudável é uma ousadia tão grande quanto de fato encontrá-lo e vivê-lo. No entanto, acredito que só há um caminho a ser trilhado nessa direção: o caminho da verdade. E somente sobre ele alcançaremos e usufruiremos de relações saudáveis, pois, com toda certeza, nada saudável se mantém pela mentira, muito menos uma relação em que o bem mais valioso a ser trocado entre as vidas que a compõe é o amor.

A mentira é uma ilusão que nos afasta de quem somos, ludibria e machuca profundamente quem em nós depositou as suas verdades e é capaz, muitas vezes com um só golpe, de matar o mais incrível amor vivido na mais saudável relação.

 

Artur Vieira Filho,  mestrando em psicanálise, saúde e sociedade e cofundador do Centro de Estudos de Felicidade-RJ.