Lições que aprendi numa jornada ao Everest

É cume! Começou oficialmente a temporada 2021 de escalada à montanha mais alta do mundo, o Everest. Todo mês de maio, assim que abrem as janelas de cume, acompanho de pertinho as expedições dos amigos ou conhecidos e volto no tempo para abril de 2017, quando consegui fazer a viagem dos meus sonhos: visitar os Himalaias e fazer o trekking até o Campo Base do Everest via Gokyo, uma trilha difícil, mas de tirar o fôlego, no Nepal.

Sei que, para muitas pessoas, estar no meio do nada num frio de lascar, sem nenhum tipo de conforto e caminhando de seis a dez horas por dia mais parece penitência do que férias. Mas, para mim, passar um tempo nas montanhas nos meus dias de folga sempre me ajuda a clarear a mente e geralmente volto ao trabalho renovada e recarregada.

Bem, não vou escrever aqui sobre como essa viagem foi uma experiência única e que mudou minha vida – e realmente mudou! Nem sobre como superei a altitude, nevascas, noites geladas, infecção bacteriana, alergia alimentar e até mesmo uma costela quebrada para chegar lá.

Mas vou dizer uma coisa: colocar minha mochila de doze quilos nas costas e caminhar durante quase vinte dias pelo Parque Nacional de Sagamartha, no Nepal, foi certamente a decisão mais desafiadora e recompensadora que já tomei antes da maternidade.

Estar no topo do Cho La Pass (5.380 metros), da Kala Patthar (5.550 metros) e do Campo Base do Everest (5.364 metros) é absolutamente incrível e indescritível. Só estando lá para saber. Embora ainda “longe” do topo do mundo – o Everest em si tem 8.848 metros – não pense que essa caminhada é fácil. Trekking em grandes altitudes desafia todo o nosso corpo. Mais do que tudo, testa nossa força mental.

Você tem que dar um passo de cada vez no frio, ofegante à medida que a altitude aumenta, com os pés se recusando a se mover um passo a mais sequer. Tudo isso enquanto ouve o som de deslizamentos, geleiras quebrando e avalanches no meio da madrugada. E você nem sabe se vai aguentar até o final dessa trilha de quase duzentos quilômetros.

Enquanto eu estava enfrentando esse desafio físico e mental, percebi que minhas jornadas como executiva de marketing e trekker são, na verdade, semelhantes. São desafios longos, difíceis e imprevisíveis, mas gratificantes e mágicos ao mesmo tempo.

Estas são algumas das lições que aprendi ao longo do caminho, e que sempre vale a pena dividir:

 

VOCÊ NÃO ALCANÇA METAS DESAFIADORAS SEM A EQUIPE CERTA

Você precisa da ajuda das pessoas certas antes mesmo de começar o trekking: um bom nutricionista e um personal trainer foram essenciais para minha preparação meses antes da viagem. A guia mais maravilhosa de todas, a montanhista Lisete Florenzano, me ajudou a escolher as roupas e equipamentos mais adequados, a desenvolver uma boa estratégia de aclimatação e me deu dicas assertivas com base em experiências anteriores. Também aprendi muito lendo livros e ouvindo conselhos de pessoas que já fizeram o mesmo percurso.

Ao longo do caminho, os sherpas nos apoiavam em toda a jornada com cuidado e orientação, enquanto os carregadores ajudavam a levar algumas bagagens pesadas enquanto eu me concentrava em outros desafios. Minha guia soube exatamente quando alternar momentos de pressão com aquele abraço caloroso, quando tudo o que eu mais sonhava era uma cama quentinha, um banho quente e qualquer comida que não fosse ovos e batatas – sim, comi a mesma refeição três vezes ao dia por dezoito dias seguidos. Além disso, meus companheiros de equipe de trekking foram os que tornaram a viagem mais divertida e fácil – e até hoje mantemos contato e eles continuam me estendendo a mão sempre que preciso!

A jornada de um executivo de negócios ou empresário é semelhante. Você precisa de sua equipe – funcionários, líderes, fornecedores, família e amigos para apoiá-lo e ajudá-lo ao longo do caminho. Às vezes, um pequeno empurrão é tudo o que precisa para seguir em frente.

Tanto no dia a dia quanto num difícil desafio corporativo, sempre conto com meu gestor, mentores e colegas para aqueles momentos cruciais em que preciso de um insight, uma pergunta certa ou apenas ouvir um “vai dar certo”.

“Construir uma empresa ou administrar um negócio não é muito diferente de escalar uma grande montanha. Você precisa de pessoas ajudando você a atravessar caminhos traiçoeiros e a levantá-lo quando você cair.” Vivek Wadhwa.

 

VOCÊ TEM QUE SE PREPARAR MUITO – ANTES MESMO DE COMEÇAR

Trekking em grandes altitudes geralmente requer muuuita preparação. Você tem que se exercitar por meses para construir músculos e resistência; tem que seguir o plano alimentar certo para fortalecer a saúde e o sistema imunológico; e é útil para treinar seu cérebro e força de vontade para os momentos em que seu corpo não quiser funcionar como deveria. Você tem que ler livros, guias de viagem e blogs, assistir a filmes e fazer pesquisas para entender como pessoas que viveram experiências semelhantes antes conseguiram lidar com os desafios, para que possa economizar algum tempo e dinheiro enquanto se prepara para a sua vez.

No mundo dos negócios, também é preciso ter planejamento e recursos antes de lançar um novo produto ou serviço. É necessário se aprofundar no planejamento financeiro, estudar pesquisas de mercado, ouvir os consumidores em potencial, conversar com outros executivos de negócios e, mais do que qualquer outra coisa, concentrar-se nos objetivos estratégicos e seguir em frente, mesmo durante os momentos mais difíceis.

Às vezes, precisamos adaptar alguns planos à medida que avançamos, por motivos externos que não poderiam ser previstos. Mas uma lição que aprendi nas montanhas foi nunca me esquecer do objetivo principal, mesmo que ele fique fora do alcance da minha vista em alguns momentos.

 

DÊ UM PASSO DE CADA VEZ E TENHA PEQUENOS OBJETIVOS DIÁRIOS

Todos já ouviram essa frase: uma jornada de mil milhas começa com um único passo. Você tem que acreditar.

Quando eu estava caminhado pelos vales nos Himalaias, os picos pareciam muito, mas muuuito distantes. Em alguns momentos, eu nem conseguia enxergar o topo das montanhas mais lindas do mundo, no meio do céu nublado. Parecia quase impossível chegar lá.

Foi então que comecei a quebrar a jornada em pedaços – e me concentrei nas pequenas tarefas, um dia de cada vez. Até o próximo abrigo. Até o próximo passo de montanha. Foi assim que consegui chegar ao meu objetivo, sem nem mesmo perceber como pude caminhar quase duzentos quilômetros nessas condições.

Montanhas não são fáceis de superar, já que o mal da altitude pode atingir qualquer pessoa – não importa o quanto você esteja preparado ou o quanto seja experiente. Todos os dias, nos Himalaias, víamos helicópteros de resgate voando sobre os vales e picos. Ver pessoas sendo removidas todos os dias sempre me lembrava de ir com calma.

Todo trekker ou montanhista de sucesso sabe que ir devagar é a chave para chegar ao topo. Em grandes altitudes, nosso corpo leva tempo para se adaptar à falta de oxigênio. Para conseguir se aclimatar melhor, você tem que ir devagar e respeitar o limite de desnível positivo que pode ter a cada dia, mesmo que se sinta forte.

No mundo corporativo, é a mesma coisa: se você for mais rápido do que sua capacidade de se aclimatar com o mundo exterior, as coisas podem se complicar. E, diferente das montanhas, no mundo dos negócios não há helicóptero para resgate. Você vai ladeira abaixo e pode prejudicar sua imagem, sua empresa e talvez nunca mais recuperá-la.

Outra coisa importante que percebi: quando você se concentra apenas nos grandes resultados e nas metas de seu plano estratégico de longo prazo, pode ser assustador e parecer complicado chegar lá. Há uma longa lista de coisas para desenvolver, construir, executar e gerenciar. Você acha que nunca haverá tempo suficiente para marcar “check” em toda aquela lista de tarefas pendentes. E seu time também pode desanimar com um desafio tão distante.

Mas, se você seguir passo a passo, concentrando-se em metas diárias, semanais ou mensais, essa sensação irá embora. E isso nos leva para a próxima lição.

 

DE VEZ EM QUANDO, PARE E ADMIRE A VISTA – E COMEMORE AS PEQUENAS VITÓRIAS

Durante quase vinte dias consecutivos, acordei às cinco ou seis da manhã, no meio do nada, para caminhar de seis a dez horas em um terreno bem difícil, com ventos frios que doíam até os ossos. A impressão que eu tinha era que todas as células do meu corpo congelavam. Muitas vezes, eu estava exausta e começava a olhar para baixo enquanto me esforçava para respirar sem fôlego na altitude.

“Não é a montanha à frente que o desgasta; é o grão de areia no seu sapato.” Robert W. Service.

Para recuperar o otimismo mesmo no meio das dificuldades, a cada uma ou duas horas eu parava e admirava as vistas mais incríveis das montanhas nepalesas. Lembro-me de levantar a cabeça para recuperar um pouco de ar. Então eu respirava fundo, sentia o vento e olhava ao meu redor para apreciar aquela paisagem e tentava registrar na minha memória.

A cada momento assim, eu tinha uma sensação única de liberdade e felicidade. Eu me sentia grata por estar saudável e em forma o suficiente para estar lá. Estas são algumas das lembranças mais especiais e alegres que carrego dessa viagem.

Foi assim que celebrei cada pequena meta diária. E foi isso que me fez avançar de cada pequeno vilarejo a outro, de cada vale ao próximo pico, até que finalmente cheguei ao objetivo principal.

Nos negócios, geralmente somos muito severos conosco – e com nossas equipes também. Quando finalmente concluímos uma tarefa ou projeto, já estamos trabalhando no próximo. Nunca paramos para aproveitar nossas pequenas vitórias.

Todo mundo precisa de uma pausa ocasional para poder aproveitar a viagem. E devemos comemorar as conquistas no trabalho como faríamos se chegássemos ao cume do Everest.

Afinal, cada um tem a vista da montanha que subir.

Eugenia Del Vigna é gerente executiva de marketing e especialista em estratégia de marca, marketing digital, CRM e liderança positiva.